Realismo Mágico em Hengqin

Ana Cristina Alves

O nome da Ilha da Montanha em chinês também é muito poético. Recorda-nos um instrumento musical, Hengqin (横琴). A universidade, essa de Macau, (澳門大學), cheira literalmente a Confúcio (孔子)a começar pelo mote, onde estão inscritas as cinco virtudes constantes (wu chang 五常): a humanidade (ren人), a integridade ou a justiça (yi義), os ritos ou a propriedade (li 禮), a sabedoria (zhi知) e a confiança (xin信), a passar pelas palavras da inscrição cedida por Hu Jintao (胡錦濤) quando foi lançado o plano do Novo Campus em 2009, a 20 de Dezembro na presença do Chefe do Executivo Chui Sai On (崔世安).

As palavras da inscrição condensaram então todo o programa político da Universidade de Macau: “Amar o País, Amar Macau, Aprender Extensivamente e Exercitar-se com Seriedade. ” (愛國愛澳、博學篤行)

A Universidade tem capacidade para mais de 10.000 estudantes e foi concebida por He Jingtang (何镜堂), o arquitecto designer do Pavilhão da China da Expo Shanghai de 2010. O idealizador da Universidade asseguraria entretanto que a concebeu de acordo com os princípios filosóficos da diversidade, interacção, modéstia e tolerância.

Se posso até compreender os princípios da interacção, modéstia e tolerância tenho alguma dificuldade em situar o da diversidade, o que se deve naturalmente à minha falta de cultura arquitectónica.

Quanto às ruas do Campus, estas foram nomeadas de acordo com a tradição filosófica mais arreigadamente chinesa. E não posso deixar de recordar a tese de Mestrado de Lei Si Wan (Mikaela), que tive o gosto de arguir em Julho de 2014, intitulada: Equivalência e não-equivalência. A Tradução de Topónimos de Macau, orientada por Yao Jingming (姚京明) e Raquel Abi-Sâmara Magalhães.

Chamava a estudante, actualmente Mestre, a atenção para as diferenças de nomenclatura dos topónimos chineses e portugueses e as dificuldades em encontrar equivalências nas traduções de alguns dos nomes.

Na verdade, nós ocidentais temos uma lógica de nomeação toponímica muito mais egocêntrica. Isto a aluna não disse, tendo sido bem mais recatada nas classificações.

Continuando, enchemos as ruas dos nossos países de nomes de personalidades que consideramos ilustres e gostamos de recordar por terem contribuído e enobrecido a nossa história. No entanto, também revelamos algumas afinidades com os chineses quando nomeamos as ruas de acordo com as actividades profissionais ou comerciais, ou quando as classificamos segundo as suas virtudes geográficas ou naturais.

Onde as nossas toponímias se separam irremediavelmente é no momento em que Confúcio e a tendência confucionista saltam para as estradas chinesas: “Posso passear?” Parece o velho Mestre dizer: “Numa universidade, a virtude tem de figurar em primeiro plano, dêem-lhe uma avenida.” E assim, ou muito próximo disto, nasceu a Avenida das Virtudes (Mingde Damalu 明德大马路) na zona Norte da Universidade, que conduz à Avenida da Vitória (Kaixuan Damamlu凱旋大馬路) para onde dá a Aula Magna (Daxue Huitang大學會堂).

Nem de outro modo podia ser. No mundo da ética confucionista não há vitória sem a prática extensiva e intensiva das cinco virtudes constantes.

Já mais a Sul temos a Rua dos Sábios (聚賢街), mais discreta, sem o estatuto de uma avenida, que apenas cabe às virtudes, não às gentes que as ostentam. As pessoas, também do ponto de vista moral, são pontos que apenas interessam quando manifestam as grandes virtudes confucionistas.

Mas pergunta-se serão todos os funcionários da UM, professores e alunos incluídos, gente virtuosa?

Em princípio sim e pessoas do mais virtuoso que existe, porque basta as nomeações para colocar os seres humanos no caminho certo, por um passe mágico, ou melhor uma transferência misteriosa que é realizada do nome ideal para todos aqueles que na realidade contactam com ele.

Encontramo-nos então perante uma espécie de realismo confucionista, à boa maneira do realismo platónico, onde certas ideias, no caso de Platão as da Beleza, Justiça e Bondade, têm o poder de transformar por participação directa ou intuitiva todos aqueles que as contemplam.

Assim quem passeie pelas ruas da Universidade ficará mais saudável na Avenida da Saúde (Qiang Shen Damalu強身大馬路), onde estão situados o Estádio e o Complexo Desportivo e mais sábio na Rua Leste da Investigação Científica ( Ke Yan Dong Jie科研東街) ou na Rua Oeste da Investigação Científica ( Ke Yan Xi Jie科研西街).

Por fim, pode ainda contar com as benesses que lhe surgem da Avenida de Lótus (Lianhua Damalu蓮花大馬路), pois se bem que não encontre templos neste Campus absolutamente laico, tem a possibilidade de contemplar a beleza que lhe é proporcionada pela flor representante do Território e simbolizadora da beleza que naturalmente a sabedoria possui.

Um olhar atento pela toponímia do Campus revela então que nos encontramos no melhor dos mundos, o paraíso universitário, onde podemos ver as flores, as árvores e os pássaros que há muito fugiram de Macau. Estamos, ou devíamos estar, pela lógica confucionista que nos governa, dependente da força mágica que a ética empresta aos nomes.

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