Um saldo simplesmente extraordinário  

Editorial

Maria Caetano

Entrei para o PONTO FINAL em Maio de 2009. E hoje estou de saída. É um facto que sei, algo que decidi, mas que ainda não assentou em mim, longe disso, à hora a que escrevo e se calhar durante uns bons tempos. Tenho colegas que saíram daqui e que até hoje continuam a acreditar que fazem parte do PONTO FINAL. E fazem mesmo. Se calhar, comigo vai acontecer a mesma coisa.

É muito duro. São muitas horas, dias, semanas e meses feitos de madrugadas, umas atrás das outras. São aniversários de amigos aos quais se falta, são duas palavrinhas curtas para dizer à família que se está bem, são os desencontros com quem está à nossa espera, e algumas coisas que se perdem pelo caminho, são constantes refeições no teclado, noites mal dormidas, dificuldades várias. E, porém, muitas vezes, fazemos por prolongar ainda mais a noite, porque há aquela história que tem de sair e significa tanto para todos nós.

Aquilo que penso no momento em que escrevo isto – que é uma nota de despedida pessoal em que abuso completamente do privilégio de publicação para poder falar de um tema que importa a um pequeno círculo, para mim muito relevante – é que este jornal aparece-me como uma espécie de imaterialidade qualquer que ganha sentido na série de nomes que encheram e enchem a ficha técnica e com os quais tive a oportunidade, o privilégio, de trabalhar e de a eles me afeiçoar. O jornal PONTO FINAL são estas pessoas todas, que nas suas diferenças, e por misteriosa ordem, permitem uma identidade que assiste a vagas de entradas e saídas sem nunca se desintegrar. Acho isto fantástico.

Diga-se o que se disser do jornalismo, a redacção – na verdade, as pessoas que encontramos nela – é um lugar óptimo para ver o mundo. É aqui que a gente se indigna, discute, critica, se zanga, sonha, ironiza, empenha, e se convence que vai mudar o mundo – modestamente – para que ele seja um bocadinho mais aquilo que as pessoas merecem que seja. É aqui que a gente faz isto tudo e tem companhia para o fazer como um projecto. É aqui que a gente tem a sorte de encontrar gente suficientemente cândida e generosa para achar que o consegue fazer. O jornalismo acaba por viver destes pequenos fundamentos, um pouco como a procura da verdade e da objectividade: no dia em que deixamos de acreditar nestas coisas cometemos o último deslize, e condenamo-nos a ser outra coisa qualquer. E eu tive muita sorte com as pessoas que encontrei ao longo dos mais de cinco anos em que aqui trabalhei. Nunca permitiram que isso me acontecesse. E nunca deixaram que isso lhes acontecesse. Muito obrigada!

Agora vem a parte pior. É que eu não apenas vou deixar o jornal, como também vou deixar Macau e, nesse passo, que decidi, perder o quotidiano com todos estes e outros amigos que fiz e com esta terra que, simples e ridiculamente, eu amo com o coração que tenho, que neste momento me pede libertação mas que em parte fica aqui obrigado. É um facto que sei, algo que decidi, mas que ainda não assentou em mim. Conheço pessoas que saíram daqui e até hoje continuam a acreditar que fazem parte de Macau. E fazem. Se calhar, comigo também vai ser assim.

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