Orçamento discreto

Patrícia Silva Alves

Nos últimos anos, as previsões das receitas do jogo em Macau têm sido uma espécie de Ovo Kinder: não se sabe bem o que está lá dentro. Mas com base na experiência passada, a oferta tem sido agradável. Deixou de ser. Este ano, as receitas não cumpriram com o esperado e, apesar de se contar já com uma contracção das receitas, esta foi maior do que a esperado, pelo menos se tivermos em consideração as estimativas apresentadas em Novembro do ano passado pelo antigo secretário para a Economia e Finanças, Francis Tam, que foram revistas há uma semana.

A revisão pode ser, como apontou o economista Albano Martins, o resultado da mudança de secretário. Afinal, Lionel Leong apontou já que um dos seus objectivos para este mandato era criar “um modelo de previsão científico sobre o estudo das receitas do jogo e da economia” com o objectivo de “obter informações sobre as tendências económicas de uma maneira mais acurada, incluindo uma previsão para as receitas do jogo”.

Comparando com as previsões falhadas dos últimos anos, ter um modelo que se diz científico de previsão de receitas é positivo, ainda que peque pelo seu atraso. Mas espantou-me sobretudo a forma como foi anunciado.

É que ao mesmo tempo que o Chefe do Executivo fazia afirmações generalistas sobre o sector do jogo durante a apresentação das Linhas de Acção Governativa aos jornalistas, o Gabinete de Comunicação Social distribuiu discretamente através do seu site uma novidade que o Chefe do Executivo não deu – de que afinal seria preciso rever o orçamento preparado há menos de seis meses porque as receitas afinal vão descer.

A notícia de que será preciso um orçamento rectificativo, em si, não é uma surpresa (apesar de achar que deve ser lida com atenção, pois nem mesmo o Governo parece saber até onde as quebras das receitas podem ir). O que me surpreendeu foi o facto de a notícia ter sido dada de forma desleal – todos os jornalistas tinham os seus microfones estendidos ao Chefe do Executivo durante aquela tarde e, no entanto, não foi capaz de avançar com uma informação importante – de que afinal as quebras das receitas do jogo estão já contabilizadas e que o saldo orçamental esperado deve encolher mais de 60 por cento em relação ao que se esperava há menos de seis meses.

Pelo bem da transparência era necessário que esta informação tivesse sido dada de forma clara aos jornalistas e, através deles, à população. O Chefe do Executivo, como rosto do Governo, deveria ter anunciado essa proposta de revisão do orçamento e deveria ter sido sujeito às questões dos repórteres. Se não, de que serve ter um microfone estendido se as verdadeiras questões são enviadas por comunicado sem direito a perguntas?

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