Ser um defensor da teoria do colapso

[Olho mágico]

 

Eric Sautedé

Politólogo

Na véspera da reunião da Assembleia Popular Nacional, em Março, a publicação de um artigo de opinião por um dos mais reputados especialistas em China contemporânea dos Estados Unidos, que previa o desmoronamento do poder comunista, criou uma convulsão em muitos círculos de observadores da China. Estava em causa o ‘timing’, naturalmente, já que antecedeu a ocasião em que o regime exibe a sua determinação e força e o artigo criava assim uma espécie de quiasmo cognitivo, tal como o meio de difusão: o Wall Street Journal (WSJ) é um diário com autoridade e construiu uma reputação de excelência no que diz respeito aos assuntos da China, e não apenas no sector financeiro.

Depois, a personalidade do autor acrescentava mais um nível de destaque ao que tinha como intenção ser uma chamada de atenção. David Shambaugh é professor de Ciências Políticas na Universidade George Washington, e goza de um alto grau de reconhecimento tanto internacionalmente como na própria China, tendo inclusivamente sido recentemente distinguido por um think-tank do Governo chinês como o segundo mais influente perito em China nos Estados Unidos. Para além disso, o Professor Shambaugh é um convidado habitual da Academia de Ciência Sociais da China e da Escola do Partido Comunista em Pequim. Um dos seus recentes livros, publicado em 2008, descrevia efectivamente a forma como o partido tinha dado “um número de passos adaptativos para se legitimar, voltar a institucionalizar-se e salvar-se”, em grande parte devido a lições aprendidas com a queda da União Soviética e regimes sósias vizinhos.

Na verdade, o Professor Shambaugh não pertence à longa tradição de defensores da “teoria do colapso” e, inclusivamente, alerta no seu texto no WSJ que “prever o desmoronamento de regimes autoritários é algo arriscado”. Claramente, aquilo que ele pretende dizer com a palavra “arriscado” tem que ver essencialmente com o fracasso total em observar e caracterizar um marco emergente – a queda do Muro de Berlim em 1989 ou a Primavera Árabe de 2011 –, com o não ver o óbvio, apesar de reconhecer oportunamente que desde “a experiência de quase morte do regime na Praça de Tiananmen em 1989, […] vários sinólogos experientes arriscaram a sua reputação profissional ao afirmarem que o colapso do poder do PCC era inevitável.” O termo “colapsista” deriva de um famoso livro de 2001, de Gordon Chang, um advogado americano, intitulado “The Coming Collapse of China”, no qual o autor defendeu que o poder comunista na China iria desintegrar-se em 2011 devido às ineficiências económicas provocadas pelo Estado e à incapacidade de o regime se reformar para uma sociedade mais aberta. Chang tentou convencer os seus leitores em 2011, por ocasião de uma reedição, que a sua previsão estava errada em apenas um ano, mas mais uma vez falhou o alvo.

As estimativas do Professor Shambaugh são, claro, de uma natureza diferente e, deliberadamente, este não oferece um calendário preciso para aquilo que designa como “The Coming Chinese Crackup”. Porém, ele define “cinco indícios da vulnerabilidade do regime e da fraqueza sistémica do partido” que parecem ter-se tornado mais pungentes desde a ascensão ao poder do Presidente Xi Jinping. Primeiro, há a ideia de que as elites económicas perderam confiança no regime e “estão preparadas para desertar em massa caso o sistema comece realmente a desmoronar-se”. Em segundo lugar, acredita-se que o Governo está inseguro em razão da grave e multifacetada repressão que afecta de vários modos a sociedade civil – advogados, jornalistas, académicos, autores de blogues, militantes, etc. Da auto-confiança nasce a tolerância para com os outros. Em terceiro lugar, o apoio ao regime é caracterizado como sendo “simulado” ou de pura aparência, e por conseguinte os slogans já não estão nas mentes e corações dos quadros. Quarto: a luta contra a corrupção, ainda que o Professor Shambaugh reconheça plenamente a sua abrangência e profundidade sem precedentes, é uma batalha perdida uma vez que está relacionada com um problema sistémico, e assim requer o estabelecimento de mecanismos de transparência que pressupõem a governação de acordo com a lei. Finalmente, em quinto lugar, as reformas económicas propostas têm fracassado em materializar-se plenamente porque os seus objectivos ambiciosos desafiam grupos demasiado poderosos e profundamente instalados.

Numa entrevista ao formidável blogue sobre a China do The New York Times, o Sinosphere, o Professor Shambaugh explica mais aprofundadamente as motivações para o seu artigo e de alguma forma a sua desilusão face ao rumo de inversão observado após a saída de cena do vice-presidente Zeng Qinghong, em 2007. De facto, o endurecimento do regime não teve início em 2012, mas antes em 2009, quando aquilo que ele designa como “Quadrado de Ferro” – propaganda, segurança interna, Exército Popular de Libertação e Polícia Armada Popular, e empresas estatais – conseguiram convencer o Presidente Hu Jintao que haver maior controlo e repressão da sociedade era uma questão de sobrevivência do partido.

Há naturalmente limites – que são robustos – aos argumentos do Professor Shambaugh. Geremie Barme, um grande observador australiano da cultura política da China contemporânea, está absolutamente correcto ao assinalar que “os dirigentes estão sempre aborrecidos” e que “os trabalhos do líder nunca convencem” (acrescentaria propositadamente). Está também certo quando declara que “a China de Xi é mais feia, repressiva e estreita, porém, é mais confiante, fala melhor e está mais orientada do que em qualquer época posterior a Mao Tse Tung.”.

Além disso, conforme assinala um astuto blogger conhecedor da política chinesa, “o colapso da força política não significa necessariamente o colapso do PCC” e o partido apresenta-se afinal “como um polvo de muitos tentáculos […] e, dependendo do seu objectivo político num dado momento, decide quais o braços que devem ser duros e continua a usar outros braços”. No entanto, o alerta do Professor Shambaugh faz sentido, e não porque “o Ocidente” simplesmente falha em ver qualquer futuro político que esteja para lá da democracia, mas antes porque a repressão sistemática e não misericordiosa de tudo o que é considerado “anormal” ou “desviante” termina necessariamente numa forma de novo totalitarismo, e, isso, sabemos que entra em colapso.

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