Estranhezas

Lou Shuo

A banda britânica do rock’ n’ roll’ Wham! estreou-se nos palcos chineses em 1985. Sendo o primeiro grupo musical ocidental a cantar em frente de uma audiência chinesa e também a descobrir esse país socialista que experimentava a recente mudança trazida pela reforma e que assistia a essa abertura com olhos curiosos, esse evento histórico foi registrado num documentário que tem a duração de cerca de uma hora.

Trinta anos depois, eu, felizmente, revivi o que era aquela época através das imagens no ecrã de cinema. Testemunhei aqueles dias em que Pequim estava cheia de um oceano de milhares bicicletas coloridas no centro da cidade, e claro, sob um céu de azul puro. Nessa época o povo chinês ainda não sabia quem era John Lennon, nem entendia muito bem o significado das letras radicais cantadas por bandas estrangeiras.

Mas houve duas partes do filme que me deixaram uma impressão forte, ou seja, de estranheza. Primeiro, a declaração oficial do ministro da Cultura da época, que disse aos jovens: “Devem assistir o espectáculo, mas não aprendam com ele”. A outra foi um comentário do cantor principal da banda: “Todas as regras e regulamentos que existem nesse país deixam-me confuso, especialmente a sua imprensa”, notou George Michael.

Sim, já passaram 30 anos – o tempo suficiente para que um bebé se tornasse num adulto – e o desenvolvimento deste país também passou por grandes mudanças. Entretanto, como as pessoas dizem “a História é sempre surpreendentemente semelhante”, e a sensação de estranheza que tenho em relação ao ano de 1985 parece estar a repetir-se e a persistir hoje: a vigilância da cultura e dos valores ocidentais e o controle interminável dos meios de comunicação social do país.

Tudo isto lembrou-me uma jornalista chinesa que conheci nas reuniões da Assembleia Popular Nacional há poucos dias. Ela trabalha como editora sénior de um jornal chinês de assuntos jurídicos muito conhecido e o papel dela este ano foi acompanhar a agenda e actividades de delegação de Macau.

“Será que eu preciso de mostrar os artigos para que verifiquem a adequação das palavras usadas”, perguntou-me ela com a voz calma, o que me causou estranheza. “Essa é a rotina do trabalho dos jornalistas na minha redacção”, justificou, indicando o processo do dia-a-dia da “revisão” dos textos pelos superiores.

A liberdade de expressão está escrita como um direito fundamental na Constituição da minha pátria e estudei isso com os professores desde criança. Mas a realidade parece algo diferente e estranho, como se vê numa frase de um amigo jornalista chinês: “Hoje, os profissionais de media chineses estão a dançar presos num jugo e ao mesmo tempo têm que fingir estar felizes”.

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