Imaginação e poder

[Editorial]

Maria Caetano

 

1) O Festival Literário Rota das Letras, o quarto, teve ontem início no edifício do antigo tribunal, mesmo no centro da cidade, algures onde a maioria de nós se cruza entre a saída do trabalho e as horas de ócio que o dia reserva para que, com liberdade, se encontrem fontes suplementares de sentido para a vida. Quando a imaginação e as condições objectivas permitem que com elas sejamos mais nós, ou mais outra coisa qualquer, mais livres.

A escrita liberta. Mas a escrita também autoriza e legitima prisões. A escrita faz muita coisa, instrumento útil e inútil das nossas viagens e ruminações. O seu poder foi o tema de sessão de debate inaugural deste encontro da escrita, com Murong Xuecun e Francisco José Viegas a oferecerem um desencontro circunstancial: na China da censura, Murong vê a utilidade de palavras que transformem o que está à volta dele; em Portugal dos dias que correm, Francisco José Viegas sugere-nos que um livro faz algo por quem o lê, que o debate sobre uma escrita ao serviço da acção ou da denúncia do que for é uma questão dos compêndios da história que revisitamos em análise. Nenhum deles rejeita o poder do escritor.

De alguma forma, porém, a questão da liberdade atravessa-se no debate. A gente ser livre é a gente poder. E a gente poder escrever, ler, publicar – garantias que meio mundo, também no país onde estamos, chama por outro nome porque não são, de facto, garantidas – é, de novo, a gente a poder, a poder qualquer coisa. Da próxima vez que ouvir falar do sonho chinês de Xi Jinping quero muito lembrar-me do sonho chinês de Murong Xuecun, e de como um e outro não estão desligados porque se confrontam, e de como inevitavelmente um deles derrota o outro.

 

2) Na próxima segunda-feira, o Chefe do Executivo dá início à apresentação do programa do Governo. O que há de cerimonial no debate limitado com os deputados esperava-se que este ano cedesse lugar a outra coisa, com um Executivo reformado na aparência. Quando Chui Sai On começar a ler o texto vamos perceber se assim é. Porém, perdoem-nos o agoiro. Quando começamos a perceber que a resolução de um dos problemas locais urgentes – que o Governo já cunhou, com aspas, como “crise em termos de abundância” – está na “diversificação” da economia, sabemos que estamos em maus lençóis.

A “diversificação”, segunda pérola do Delta a seguir à “plataforma”, tem o problema prático de nunca se ter consubstanciado em nada que pudéssemos ver, tocar, cheirar. Tem sido a palavra mais sem imaginação da história da RAEM – cada vez que alguém a pronuncia, a cabeça tolda-se-lhe de nevoeiro denso e soporífero; e quem ouve fica adormecido. Tem o condão de suspender o tempo numa moinha aborrecida sem fim. Por isso, tantos anos passaram sem que nada acontecesse até aqui. E eis aqui um exemplo prático do poder das palavras.

Porque se escolheu a palavra diversificação – como quem escolhe “estratégia”, “talento”, “alavancar” – nunca nada aconteceu. O que se espera das próximas Linhas de Acção Governativa é imaginação e propriedade no texto. Em vez de dizer que “o Governo vai apostar na diversificação da economia” e “cooperar” na região esperamos ouvir coisas como – mero exemplo – “as empresas seguintes de Macau vão poder explorar os sectores de actividade tais na província de Guangdong nas condições seguintes, a partir de data tal, e com eventuais apoios concretos que tais, do que esperamos obter tal e tal ao fim de período indicado”.

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