O silêncio do Ipiranga

Márcia Souto

Escritora e cronista

No começo disfarcei indiferença. Era de manhãzinha e eu não iria estragar meu domingo com notícias de tão longe.

Ainda nem tinha acabado por lá o escaldante verão que me havia feito suar em pleno inverno europeu. Aquelas eleições na minha pátria-tupininquim, muito estranhas e de agourenta campanha, faziam-me sofrer e calada…

Mas isso passado, já era meio de março e ainda por cima domingo.

No meio da manhã, senti uma indisfarçada agonia. Mas deixa estar que vai passar.

O almoço não me caiu bem. Difícil engolir o arroz-feijão, o mesmo que me fez, há anos, perambular pela cidade antiga em busca de um tempero que me lembrasse minha vida tão distante.

A tarde chegou com as notícias que me iam intuindo este aziago domingo, embora eu não as quisesse acreditar. Entre uma canção e outra, o rádio me plantava mais uma angústia. A TV permaneceu desligada o que mais que pôde, mas a internet, irresistível, só me permitia ver no azul do céu daquele domingo uma nesga da bandeira que aprendi a amar ainda muito menininha. Aquele azul, embora dia, fazia-se salpicado por estrelas e uma faixa orgulhosa a desejar “Ordem e Progresso”.

Mas as palavras de ordem que entravam na minha sala sem pedir licença vinham encobertas de um quê de retrocesso, de um quê de revanchismo, de um quê de equívocos, de um não-sei-quê de inconstitucionalidade.

E a noite caiu, ou melhor, desabou a querer fazer deste domingo um dia inesquecível, posto que um dia para se esquecer, um dia medonho. E o travesseiro, amigo, permitiu-me chorar tudo o que represei neste domingo e, escondida pela tempestade que ameaçava cair do outro lado do Atlântico, não dormi nem sonhei.

Mas acordei, e o meu silêncio do Ipiranga só foi rompido pela música de Chico Buarque de Holanda que dizia suavemente: “Apesar de você amanhã há de ser outro dia… lá rá lá rá lá…”

A rua é neste domingo da direita brasileira para marchar contra Dilma

Movimentos conservadores esperam levar 100 mil à rua. Mas o seu sucesso depende de muito mais do que números.

Espera-se para domingo o culminar do duro período de contestação que envolve Dilma Rousseff desde que tomou posse, em Janeiro. Vários movimentos de cidadãos conservadores convocaram protestos contra a Presidente para cerca de 200 cidades no Brasil. Partilham quase todos uma identidade liberal, mas não existe nenhuma bandeira ideológica unificadora dos protestos. Trata-se sobretudo de uma manifestação anti-Dilma.

Jornal “O Público”, 15/03/2015

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s