O Masterchef e o trabalho infantil livre

[Ultimatum]

Isadora Ataíde

Leap tinha 10 anos e passava doze horas por dia a vender bolos de arroz aos turistas nos arredores do Palácio Real de Phnom Penh quando foi “resgatada” por um programa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e passou a frequentar a escola. Juanita, de 11 anos, e os seus seis irmãos trabalhavam com os pais em minas na Bolívia, também foi incluída num programa da OIT que lhe permitiu “ser” criança. Monique foi sequestrada pelo grupo rebelde Mai Mai, no Congo, quando tinha 14 anos para trabalhar como cozinheira, espia e combatente. Foi libertada aos 17 anos, com um filho, e inserida num projecto de formação agrícola, tornando-se uma pequena empresária.

Estas três meninas fizeram parte do grupo de cerca de 168 milhões de crianças no mundo, entre os cinco e os 17 anos, que trabalham. A região campeã na exploração do trabalho infantil é a Ásia-Pacífico, seguindo-se a África e a América Latina. Apesar dos muitos protocolos internacionais, da acção das organizações multilaterais como a ONU e a UNICEF, e do contínuo comprometimento das lideranças políticas, as crianças continuam a trabalhar.

Mundialmente famosos, quase “incontornáveis”, são o Alexander, a Dara, o Jack, o Troy, o Gavin, a Sarah, a Kaylen, a Sofia, o Jewels, o Roen, a Molly e o Tommy. Doze crianças entre os nove e os 13 anos que participaram da primeira edição do Masterchef Junior nos Estados Unidos, promovido pela cadeia de televisão Fox e conduzido pelas estrelas Michelin Gordon Ramsay, Joe Bastianich e Graham Elliot.

Ao longo de três meses e em sete episódios, cada um com duração média de 45 minutos, as crianças foram postas a cozinhar e a competirem na elaboração do melhor prato. A cozinha em nada diferenciava-se da versão do programa para adultos: fogões semi-industriais; um conjunto de facas profissionais e equipamentos electrónicos de processamento de alimentos, entre dezenas de outros assessórios para os pequenos cozinheiros. Não se sabe precisar quantas horas por dia o grupo de crianças trabalhou, mas, para além da gravação dos programas, a produção do Masterchef inclui a selecção prévia dos participantes, publicidade e entrevistas aos media, o que supõe meses de intenso trabalho para as doze crianças americanas.

Segundo a UNICEF, é um conjunto de características que torna o trabalho infantil impróprio, entre elas: a idade, o grau de perigo da actividade, o risco para a saúde e o impacto do trabalho no desenvolvimento pessoal e na educação das crianças.

O grupo da primeira edição do Masterchef tinha entre nove e treze anos; no programa as crianças limpam peixes com facas maiores que as suas mãos e mexem com fogo, literalmente; ainda que com a autorização dos pais, as crianças foram expostas para milhões de pessoas e em diversos meios de comunicação; não parece que tenham ido a escola ou brincado na altura do programa.

Pelos critérios internacionais, o Masterchef é trabalho infantil, mas nenhuma organização o denuncia ou parece importar-se. Os Estados Unidos – onde milhares de crianças trabalham nos programas do Canal Disney, consumidos por milhares de milhões de pessoas no planeta – não estão ao lado do Botswana, da Índia ou do Brasil na lista de países onde o trabalho infantil persiste.

Na semana passada foi anunciado que o chef Gordon Ramsay irá abrir um restaurante em Macau no próximo ano no empreendimento da Sands no Cotai. Aliás, Sir Gordon – visto que recebeu a Ordem do Império Britânico em 2006, ordem que foi rejeitada pelo cientista Stephen Hawking, senhor decisivo para se compreender a origem do universo. Sir Gordon ganhou 14 estrelas Michelin, tem dezenas de restaurantes espalhados pelo globo e criou a Fundação Gordon Ramsay, a qual propaga lutar contra a fome e combater o cancro infantil.

Sir Gordon mete as crianças na cozinha colocando suas infâncias em risco. Em breve Sir Gordon abre sua cozinha em Macau, pratos Michelin sem trabalho infantil. Nas manifestações deste domingo no Brasil apareceu um cartaz que dizia “Chega de Paulo Freire, queremos uma educação livre”. Transliterado, seria “Chega de UNICEF e OIT, queremos um trabalho infantil livre, ver a Fox e comer Michelin”.

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