Em defesa dos corruptos

[Tapau no bufê]

Rodrigo de Matos

A China está a apostar forte na luta anti-corrupção. Este fim-de-semana, durante a Assembleia Popular Nacional (APN), a decorrer em Pequim, ouvimos o presidente do comité permanente, Zhang Dejiang, afirmar que o Governo Central pretendia acelerar o lançamento de nova legislação para combater a corrupção. Ora, isto coloca problemas graves de conservação ecológica, uma vez que a caça desmedida já deu mostras no passado de ser uma ameaça que pode, em última instância, levar à extinção completa de uma espécie, como aconteceu com o dodó.

Surpreendentemente, ainda não se ouviu nenhuma organização ambientalista se manifestar em defesa da protecção do corrupto. Isto é um escândalo e mostra que existem filhos e enteados nisto da conservação das espécies. Os pandas têm direito a um hotel de sete estrelas em Coloane que é de morrer – às vezes literalmente – de encanto, com tanta mordomia, e os pobres dos corruptos, coitados, já nem sequer podem frequentar um dos seus habitats favoritos: as salas VIP dos casinos.

Como acontece com outros animais negligenciados pelas pessoas, é muitas vezes a falta de conhecimento que leva a que ninguém ligue a esta que é uma espécie fascinante. Insecto rastejante da família das baratas, o corrupto (Salafrarius subornensis) habita os gabinetes e instituições públicas, onde parasita todo o tipo de mamíferos que encontre à disposição, mas com uma predilecção pelo sangue dos contribuintes, que suga com satisfação, mas de forma indolor. Praticamente invisível a olho nu, o corrupto serve-se do mimetismo da sua pelagem para se confundir com outra espécie de aspecto semelhante, esta devidamente protegida: o político (Politicus normalis). É mesmo relativamente comum a interprocriação entre as duas espécies. Os espécimes híbridos nascidos deste cruzamento são mesmo um caso único na natureza de animais que se podem enquadrar em duas espécies em simultâneo.

Com as suas antenas peludas e peçonhentas e os seus tentáculos pegajosos, na verdade, o corrupto é um bicho até um bocado asqueroso. Mas proporciona-nos muitas coisas boas também. Por exemplo: lavagem de dinheiro sujo – se não fossem eles, andávamos com notas tão imundas que não conseguíamos distinguir uma de 10 de uma 20 patacas. E a extinção do corrupto poderia provocar graves desequilíbrios nos ecossistemas. No Comissariado contra a Corrupção (CCAC) ia ficar toda a gente sem ter o que fazer. Além disso, basta ver como a indústria dos casinos em Macau se ressentiu com a investida que o Governo Central lançou sobre a corrupção. Por isso, nem que seja em nome da saúde da restante fauna de Macau: Salvem os corruptos!

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