O salto teórico do tigre

[ULTIMATUM]

Isadora Ataíde

O Diário do Povo, jornal do Partido Comunista Chinês, só fala a verdade. E a diz em várias línguas, como fazia o Pravda, que já em 1924 tinha uma versão em francês que criticava a continuidade das práticas esclavagistas nos territórios portugueses em África e era distribuído em Cabo Verde.

O jornalismo cão-de-guarda, com vigilância ao poder e aos chefes, é uma das práticas do Diário do Povo. Em 2014, o periódico denunciou o uso de telemóveis pelos delegados durante a Assembleia Popular Nacional, os quais, inclusive, jogavam mahjong durante as sessões, ignorando os discursos da liderança. Resultado, este ano os telemóveis foram proibidos no Palácio do Povo.

Reportagens aprofundadas, a exemplo da Rota da Seda no século XXI, também estão entre as especialidades do jornal. E não faltam fontes ao Diário do Povo. Notícias, reportagens ou artigos de opinião, todos os conteúdos jornalísticos são acompanhados de fontes, as quais têm opiniões distintas e, frequentemente, contraditórias. O jornal não deixa de criticar a “discurso bélico” que o Japão tem adoptado, mas também refere que as relações com o vizinho “devem ser cultivadas, por razões económicas e políticas”. Sim, o Diário do Povo também tem os seus desvios ideológicos, não denunciou o uso do Facebook pela Xinhua e segue moda e comportamento no estilo da Elle.

Como os jornais do Norte da Europa, os quais recebem subsídios do Estado porque o jornalismo é considerado uma actividade de interesse público nestes países, o Diário do Povo segue uma tradição de jornalismo político, na qual a imprensa assume e representa os grupos sociais e as suas causas. Tal posicionamento político não inibe o jornalismo, e o Diário do Povo, de construir o “conhecimento” do quotidiano, como o jornalista e sociólogo Robert Park, um dos fundadores da Escola de Chicago, designa os conteúdos jornalísticos.

Para os líderes políticos mundiais, para as nações que anseiam por parcerias com a China e para os empreendedores que almejam chegar aos consumidores chineses, o Diário do Povo é incontornável. E, a imprensa internacional de referência, acompanha avidamente o periódico. Os vizinhos regionais são seguidores fiéis da voz do partido, gostem ou não da sua estratégia noticiosa e do seu estilo. Saiu hoje no Diário do Povo, amanhã reproduz-se na imprensa regional, com uma crítica ferrenha ou com um comentário auspicioso de um especialista ou de uma organização internacional.

As reuniões nacionais em Pequim lideram a agenda do Diário do Povo nas últimas semanas. O jornal especulou que as reuniões deveriam ter como tema central as “quatro tarefas inclusivas” decidias pelo 18º Congresso. “Aprofundar as reformas”, “avançar no processo legislativo”, “construir uma sociedade moderadamente próspera” e “fortalecer a disciplina partidária” eram as tais tarefas, inseridas no conceito do “sonho chinês”, princípio apontado pelo Presidente Xi Jinping quando assumiu a liderança, também conhecido como “a grande renovação da nação chinesa”.

Entretanto, num tratamento mais aprofundado, o Diário do Povo passou a referir as tarefas como “teorias” e a Assembleia Popular Nacional como “o momento ideal para discutir a nova teoria e ajudar a fortalecer a sua implementação”. É evidente que um líder como Xi Jinping só poderia ser um teórico, não há dúvidas. Mas, a transcendência de tarefas em teorias é um caso mais complexo.

Ora, teorias são proposições teóricas que respondem às problemáticas (um conjunto de perguntas relacionadas que se caracterizam como problemas). As hipóteses, respostas e constructos teóricos provisórios, são testadas através da investigação empírica (estudos práticos com métodos científicos) acompanhada de suporte e enquadramento teórico. Algumas respostas são refutadas e as demais são a teoria, a verdade, ao menos nas ciências exactas e sociais, e ainda que provisórias.

Embora não tenham carácter filosófico, e por isso possam ser tratadas com pesquisa empírica, as tarefas de Xi, aparentemente, não foram estudadas com rigor científico, ou talvez tal estudo não tenha sido divulgado numa revista especializada, desde o 18º Congresso. E a questão persistia, como tarefas transformam-se em teorias?

O Fernando Jorge levanta uma possibilidade, não testada, mas “plausível”, considera, para compreender o dilema. O teórico Xi Jinping apresentou ao povo e à sua liderança, o PCC, teorias normativas. É simples. As teorias normativas são prescritivas, elas servem para orientar, têm uma dimensão utópica sobre como determinado tema ou, neste caso, sociedade, deve ser e comportar-se. As teorias normativas recebem, em geral, um tratamento teórico multidisciplinar, e, como não sofrem provas empíricas, são generalizações. Actuam como tipos-ideais que orientam a “acção” dos “objectos” aos quais se dedicam. Por fim, as teorias normativas são de longo prazo e alcance, porque não estão unicamente preocupadas em como as coisas são, mas como estas devem ser. E, claro, as teorias normativas sempre podem ser traduzidas em pressupostos práticos, passíveis de teste, os quais, por sua vez, exigem a consecução de “tarefas”.

O Diário do Povo fala sempre a verdade. Apenas um leitor incauto não percebe o salto do tigre, a dialéctica da tarefa sublimada em teoria. O líder Xi Jinping apontou um novo paradigma teórico para a China, com quatro pressupostos que tornarão o “sonho” realidade.

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