Flores no deserto

Água mole em pedra dura

Catarina Mesquita

Há uns meses li um artigo que recordava a história do Vale da Morte, um vale a poucos quilómetros de Los Angeles, conhecido por ser um dos sítios mais quentes e secos do planeta Terra.

No Vale da Morte, como o nome indica, aparentemente não há vida, uma vez que não chove muito por ali (em média, apenas 5 centímetros por ano). No Inverno de 2004/2005, algo inesperado aconteceu: mais de 17 centímetros de chuva cobriram o solo, num fenómeno que não era registado há várias gerações.

Na Primavera de 2005, o Vale da Morte ficou coberto de pequenas flores campestres cativando a atenção de fotógrafos, botânicos, turistas e curiosos que queriam registar o acontecimento que poderia demorar largos anos a voltar a acontecer.

Com a chegada do Verão e as altas temperaturas, as flores morreram e o Vale da Morte voltou a ser aquilo a que durante anos tinha habituado as pessoas: um verdadeiro deserto.

O que isto significa é que o deserto americano não estava morto mas simplesmente adormecido, à espera apenas das condições ideais para acordar e crescer.

De certa forma isto fez-me lembrar o efeito que a queda nas receitas do jogo tem em Macau. Mensalmente tem havido uma chuva torrencial, o anúncio no recuo dos casinos.

No deserto de Macau, onde parece brotar apenas o jogo, chove e espera-se que a “Primavera” chegue para ver as flores da inovação nascer. Mas como podem elas crescer se não há sementes?

Adiam-se infra-estruturas essenciais para a população, como o metro ligeiro, o terminal marítimo de Pac On, o Hospital das Ilhas e uma lista infindável que se contrapõe a uma réplica da Torre Eiffel que cresce à velocidade de propagação de um erva daninha, no COTAI.

As palavras “diversificação económica” assumem-se como um pesadelo para Macau, que agora se vê obrigada a puxar pela imaginação e a deixar de viver exclusivamente de uma indústria em queda, que não está pela hora da morte mas que faz tremer o chão.

A imaginação no território para a diversificação parece estar-nos a trair como a água que teima em não aparecer no Vale da Morte. Como irá Macau reinventar-se daqui para a frente?

Michelangelo dizia que “o maior perigo de todos nós não é pormos a faísca dos nossos objectivos muito alta, mas sim pormos baixa demais e atingi-la facilmente”.

Admiro quem sonha alto e inventa de verdade, quem ainda tenta dar algo diferente e, principalmente, admiro aqueles que, não se deixando vendar pelo brilho da cidade dos casinos, têm esperança que do território seco ainda nasçam flores.

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