“Nós, os brancos”

[Pode ir à sua vida]

 

Sandra Lobo Pimentel

 

Tinha um professor na Faculdade que dizia esta frase com demasiada frequência. “Nós, os brancos”, seja lá o que isso queira dizer. Até porque a cor da pele do próprio não era assim muito para o branco. Normalmente, olho para a minha pele quando me deparo com esse tipo de classificações, porque, por mais voltas que dê, não consigo perceber como é que sou branca. A minha pele é assim mais para o rosa claro…

Não me admira se o problema for, afinal, meu. Na última semana andei a ver um vestido branco e dourado, quando me diziam que estava errada porque o vestido era preto e azul… E afinal era mesmo.

Estamos então perante um problema de retina? Eu de facto não tenho a sorte de dispor de uma visão desprovida das bengalas que a óptica nos oferece. Pode ser disso. E se calhar aquele meu professor cansou demasiado os olhos, de tantas páginas lambidas a estudar, de certeza, noites a fio, como quase todos nós fizemos ou ainda fazemos.

Mas parece que é um problema mundial que já vem de gerações anteriores. Quando era mais pequena lembro-me de vários desenhos animados e ilustrações onde apareciam chinesinhos amarelos. Ora, então não é que, quando olhei a primeira vez para pessoas de etnia chinesa, e, quando esperava ver amarelo, não consegui? Fiquei preocupada.

O mesmo aconteceu quando comecei a ouvir expressões como “os pretos”. Que raio? Então há pessoas que têm pele preta? A cor preta mesmo? Olhava, olhava, e não via nada disso. Há ainda quem diga “os negros”, não sei se a diferença no uso da palavra adianta, porque de negro também não consigo ver nada.

Assumo desde já o meu problema de visão. Mas não me preocupo nada. Eu gosto mais de ver pessoas, que todas elas são diferentes entre si. Aliás, se formos pelo tom da pele, ela tem tantos, mesmo entre irmãos e família, que a discussão é simplesmente desprovida de senso.

Mas ao longo da vida e dos lugares por onde passei, fui percebendo que ainda há demasiadas pessoas que dão importância aos tons diferentes que as nossas peles têm. Pior. Percebi que isso serve como arma de arremesso, como insulto e impropério.

Há pessoas que não valem nada. Brancos, pretos e amarelos. E há lutas que não deveríamos ter que travar, mas que o preconceito vai empurrando pelo tempo fora, colocando em causa toda a lógica da evolução e do humanismo que, achava eu, já teríamos direito a reclamar de todos.

Ainda não é assim. Continuemos a lutar, então. “Nós os brancos”, mas também os pretos e os amarelos (seja lá o que isso for…) mas, acima de tudo, todos. Por favor.

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