Uma flor nasceu em mim

Márcia Souto, cronista

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E acho que não aconteceu nada.

Clarice Lispector

Há quem creia que viver seja a arte da perda. Para essas pessoas, viver é gerir o tempo perdido, a juventude perdida ou o amor que não se consumou como se pretendia. Ainda a arte de suportar a perda de elasticidade, quando se ajoelhar, cortar as unhas dos pés ou estar de cócoras é cada dia mais difícil. É conviver com a perda da memória, da autoestima ou mesmo a perda monetária. Para estes, mais é sempre menos. Mais um dia de vida representa menos um dia de vida.

Compreendo quem pense assim, sendo não-raro os momentos em que me sinto sócia deste clube. Mas as plantas, uma paixão que herdei da minha avó e da minha mãe, ensinam-me que viver é a arte da espera.

Em um veraneio cheio de graça em Amsterdão, não resisti a um simpática vendedora de flores e trouxe para casa bulbos de tulipas. Era uma dúzia e de cores variadas.

Sendo o Google o novo pai-dos-burros, ensinou-me ser o inverno a época adequada para plantar tulipas, que nascem mal despontem os primeiros raios solares aquecidos da primavera.

Assim, o saco dos bulbos passou o outono na despensa entre ancinhos, potes e tralhas.

E o inverno chegou… e com ele a gripe, a chuva fria e um certo acinzentar de almas. Não demorei a plantar a minha esperança de tulipas coloridas. Na varanda, três vasos receberam a maioria do meu lote de flores. Na cozinha, rente à janela e à luz que por lá entra, plantei três bulbos em vasos brancos com terra preta. Dessa forma, diariamente, mal acordo, abro as cortinas da sala e avisto as promessas na varanda. Na cozinha, não há café que eu tome sem analisar firmemente o crescimento da planta holandesa e a me perguntar: será quando? será como?

Com personalidades diferentes, minhas plantas têm crescimento muito diverso. Há umas com tendências a folhas, outras com ímpeto de caule e algumas, que muito me preocupam, não demonstram desejo de crescer, como a assumirem-se realizadas enquanto feto.

Mas hoje de manhã, um milagre aconteceu. Não sei em que misteriosa hora da noite, quando a magia acontece enquanto dormimos, um botão nasceu. Tal qual a esperança, o inseto tão bem inscrito no conto de Clarice Lispector, a tulipa em botão, a se revelar entre o rosa e o vermelho, tocou-me profundamente, como a me dizer que vale a pena esperar, que a arte da paciência sempre será recompensada.

Neste ano novo lunar, sob o signo da cabra, que promete serenidade e criatividade, torço para que consigamos substituir a arte da perda pela arte de viver sob a égide da esperança, esta entidade tão tênue quão tenaz. Que um louva-a-deus nos ensine a arte da esperança.

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