ULTIMATUM

Saudades de Guantanamera

Isadora Ataíde

“Cuba sim, yankees não, viva Fidel, e a Revolução!”. Com esta palavra de ordem cinco mil jovens latino-americanos recebiam Fidel Castro em Belo Horizonte, Brasil, no congresso da União Nacional dos Estudantes. Foram os últimos gritos em defesa das revoluções socialistas, na América Latina e não só. Em 1997, na Europa, já não havia memória do Muro de Berlim, na África e na Ásia a terceira vaga de transições democráticas vinha desde 1990 transformando a feição política de nações até então não-alinhadas e reconfigurando o mapa-múndi. No entanto, Cuba continuava na retaguarda dos processos revolucionários, a inspirar os discursos das lideranças políticas de que se diziam de “esquerda”, e as namoradas dos jovens ainda eram “quase tão bonitas quanto a Revolução Cubana”, como cantou o poeta Ferreira Gullar.

O pioneirismo da Revolução Francesa, em 1789, deveu-se à entrada em cena das massas populares, ainda que estivessem a promover as reformas políticas burguesas, que exigiam a transição de regimes absolutos, alicerçados na fé, para processos liberais, os quais deveriam incluir a representação dos distintos grupos sociais nas decisões políticas. Para além do povo, subiam ao tablado os partidos políticos e instituía-se a clássica divisão entre esquerda e direita. Outro legado da revolução mãe, foi a legitimidade do uso da violência nos processos de reforma sociopolítica. Ainda, a emergência de um novo paradigma: as ideias e os valores relativos às transformações sociais ganhavam carácter universal.

As revoluções não pararam desde então, delas derivando um conjunto de mudanças que convergiam na afirmação do capitalismo como novo modelo de sociedade. Com as revoluções afirmaram-se os impérios, que no meio das suas disputas provocaram a Primeira Grande Guerra. E aí sim, vitoriosa a Revolução Russa, herdeira da Francesa, mas dela a demarcar-se, instituía-se como referência para as revoluções que iriam sacudir o século XX o primado da igualdade social e económica e das ditaduras das maiorias proletárias.

Desde então, da gigante China ao minúsculo arquipélago de São Tomé e Príncipe, não houve nação revolucionária que não se reivindicasse filha e irmã da Revolução Russa. E do Vietname ao Chile todos os líderes não-alinhados declararam o seu apoio à Revolução Cubana. Porque Cuba, Fidel Castro e Che Guevara eram a concretização da ilha que transcendia a sua própria história colonial e insularidade e enfrentava as agruras impostas pelo vizinho, os Estados Unidos, símbolo perfeito do imperialismo e do império. E Cuba, com todas as suas limitações, encarnava o internacionalismo proletário, fosse nas suas missões ao Congo e Angola ou no auxílio humanitário em saúde e educação.

E todos recebiam Fidel, abraçavam-no e com ele partilhavam um charuto e dançavam Guantanamera. Porém, entre as muitas nações que fizeram as suas próprias revoluções, e com elas tornaram-se ricas e desenvolvidas, e entre os muitos líderes que fizeram apologia de Fidel Castro e das conquistas da ilha caraíba, nenhuma foi capaz de estabelecer uma parceria forte e de longo prazo que aliviasse as penúrias da povo cubano.

Em Dezembro de 2014, depois de 55 anos, a Revolução Cubana chegou ao fim. Fidel, na reforma desde 2006, disse que “se deve sempre desconfiar dos americanos”, mas já não faz longos discursos em defesa da sua Revolução nem fuma charutos. Raúl Castro coordena a transição cubana, negociada com Obama, que já disse “inspirado” pelos valores socialistas. A imprensa internacional saúda a nova ordem, anuncia para breve o desembarque da Coca-Cola e do McDonald’s em Havana, verdadeiras “conquistas democráticas”.

O fim da Revolução Cubana deve-se ao fracasso da revolução socialista ou à vitória final da economia de mercado? Porque os EUA parecem mais interessados em chegar aos 11 milhões de consumidores cubanos do que em promover os direitos humanos na ilha. Porque estes poderiam ter sido defendidos na ausência do embargo económico que há meio século estrangula o povo cubano. E entre os líderes mundiais conhecidos como “de esquerda”, não houve um único que defendesse as célebres conquistas de Cuba ou que reivindicasse o socialismo, discurso político do qual abusaram para num passado recente alcançarem a posição de lideranças globais.

Em A Era dos Impérios (1875-1914), escrito em 1987, o historiador Eric Hobsbawm observava que a história contemporânea, e sua própria trajectória individual, acontecia num tempo de “crepúsculo”, no qual eventos passados como o colonialismo, o império e a Primeira Guerra continuavam a influenciar os acontecimentos factuais. Ainda não saímos do crepúsculo, e os desenvolvimentos das revoluções Russa e Cubana continuam a intervir na agenda política.

A namorada do Fernando Jorge, antes quase tão bonita quanto a Revolução Cubana, tornou-se numa burocrata de um governo conservador, justifica-se dizendo que “as alianças com as burguesias nacionais são uma etapa dos processos políticos”. Em 1979, com a Revolução Iraniana, emergia outro paradigma revolucionário, e por ele ficaram encantadas três adolescentes europeias, que partiram sem os namorados para fazer revolução no Médio Oriente. Esta é outra história, mas deixa saudades das promessas socialistas, da Revolução Cubana, e de dançar Guantanamera.

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