A Ovelha Choné

Água mole em pedra dura

Catarina Mesquita

Na primeira viragem do calendário gregoriano que passei em Macau estranhei a ausência de pessoas na rua para ver o fogo-de-artifício já que o “countdown” tinha vindo a ser fortemente anunciado.

Sabia que aquela passagem de ano pouco dizia aos locais que, cerca de um mês e meio depois, estariam a celebrar em grande a entrada no “seu” novo ano. No entanto, a ingenuidade levou-me a pensar que a curiosidade pudesse vir a encher a Avenida dos Jogos da Ásia Oriental, junto à linha de água, de máquinas fotográficas, copinhos e petiscos.

A poucos minutos da meia-noite a estrada continuava vazia como nos outros dias “normais” e, apenas no alto da montanha da Taipa Pequena, encontrei um grupo de jovens, silenciosos e concentrados, que fotografavam os foguetes lançados junto à Torre de Macau.

Embebida pelo espírito da entrada num novo ano em que tudo era realmente novo para mim, estendi um copo para brindar com o grupo que timidamente aceitou a minha oferta e que, com algum receio, deu um trago na bebida.

Em Portugal, estender um copo ao vizinho do lado era motivo para ficar horas em amena cavaqueira. Já se sabe como é: palavra puxa palavra, palavra puxa copo, copo puxa copo e lá arranjamos ainda mais motivos para festejar como se a entrada num novo ano não chegasse.

Porém, aqui não foi o que aconteceu. Não pela barreira linguística mas porque o grupo simplesmente não viu motivo para tanta algazarra. Por momentos pensei que, tendo em conta que estávamos na noite de maior celebração do ano, aquele grupo estava descontextualizado: boa disposição contida, ausência de brindes e silêncio não casavam com uma noite de festa.

Um mês depois o Ano Novo Chinês chegou em força e percebi quem é que estava realmente fora de contexto. Numa das noites de celebração comprei um foguete para, segundo os supersticiosos, espantar os espíritos. No entanto, foi ao ver algumas pessoas a carregarem paus de incenso com o dobro da sua altura ou a comprarem caixas com 188 mil panchões – número auspicioso – que percebi que eu comprar o foguete mais pequeno que havia à venda tinha a mesma proporção que aceitar a medo o copo de um desconhecido na noite do “countdown”. Era ridículo.

O ano da cabra chegou e com ele os sorrisos, o barulho dos panchões a estalar, a dança do dragão e a algazarra toda… E porque não estava eu embebida agora por esse espírito de festa? Percebi que injustamente julguei a cultura oriental pouco “festeira”. Mas Macau surpreendeu-me mais uma vez com as celebrações de vários dias e noites.

Ainda assisto a discussões se este é o ano da cabra ou da ovelha. Seja como for, a verdade é que inspirada ou não pelo novo animal que agora sobe ao trono eu me sinto uma ovelha negra ou melhor uma ovelha choné (como a personagem de ficção da moda) quando percebo que ainda tenho tanto para aprender numa lista infindável de rituais de ano novo. Choné, o mais possível, quando vejo que a celebração do Ano Novo Lunar dá dez a zero à simplicidade de apenas ver fogo-de-artifício à meia-noite e brindar com os amigos de sempre e com os novos que se fazem talvez nessa noite.

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