Pandas lusitanos

Rodrigo de Matos

“Se não fossem os portugueses…”, suspirava o meu inconformado amigo Carlos Jorge numa mesa do café Caravela, onde a malta gosta de se reunir à tarde para falar mal de tudo e bem de si própria, enquanto ingere a sua dose diária de cafeína.

Uns ingratos estes chineses de Macau, na opinião do meu camarada. “Se não tivéssemos afundado aquele navio, bem que eles tinham sofrido nas mãos dos holandeses” (e os Van Coisos não eram famosos por tratar com carinho os seus colonizados). “A sério!?”, respondo eu. “Fomos nós que fizemos isso? Eu e tu, Cajó? Bolas! Bem me pareceu que eu tinha apagado um bocado ontem à noite depois daquele quinto uísque. Lembro-me de termos andado no Cubic, a gozar com a cara dos seguranças filipinos, que quase correram connosco dali para fora, mas não me lembro de termos afundado um navio holandês!…”

Mas o meu amigo tem uma memória melhor que a minha. Ele acha que devemos também ter tratamento especial porque fomos nós que introduzimos a democracia aqui (também já nem me lembrava disto. Aquele uísque!!…). Mas atenção: trouxemos para cá a democracia e, no entanto, não devemos defender o sufrágio universal em Macau porque isso poderia permitir que fosse eleito um partido que fizesse campanha contra a minoria lusitana – uma espécie em vias de extinção, que deve ser protegida, como os pandas – e acabasse por correr com a malta daqui para fora, como quase iam fazendo os seguranças filipinos do Cubic. Já viram o que era: usarem a democracia, que nós introduzimos, para nos enxotarem. Até parece um paradoxo, mas não é, porque o Cajó diz que não é, e eu acredito nele, porque ele é advogado e percebe melhor destas coisas do que eu.

Cheguei a discutir com o meu amigo, porque a postura dele me parecia demasiado nacionalista e eu achava que o nacionalismo só servia para odiarmos pessoas que não conhecíamos, mas começo a dar-lhe razão. É que estou a renovar o meu BIR e os tipos da Imigração, que dantes eram tão simpáticos com a gente, estão a ficar muito chatos e picuinhas. E agora bem que me dava jeito um tratamentozinho especial. Por isso, acho que vou começar também a ser nacionalista e a gabar-me de feitos de antepassados dos meus compatriotas, nos quais eu, pessoalmente, não tive qualquer participação. Então, ó pessoas de Macau, vejam se nos respeitam mais. Porque, se não fosse eu e o meu amigo Cajó, vocês hoje estariam a falar chinês!

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