Guerra dos Tronos

Isadora Ataíde

Uma menina de 10 fez-se explodir no mercado de frescos provocando dezenas de mortos. Adolescentes negros que usam capuz são assassinados à queima-roupa pela polícia. Um jovem adulto foi condenado a mil chicotadas por ter criado um blog. Jornalistas são decapitados por tentarem reportar o incontável. Operárias são violentadas e mortas quando regressam a casa depois de incansáveis horas de trabalho. Dezenas de jovens massacrados num acampamento de Verão. Um piloto enjaulado é queimado vivo. Empregadas domésticas são torturadas.

Não se está numa zona de fronteira, onde o pó da terra vermelha tudo cobre, com o silêncio, a modorra e os pensamentos a oprimirem os homens que esperam os bárbaros. A brutalidade humana ocupa todo o espaço, vivemos entre bárbaros. Somos bárbaros, nós, supostamente humanos civilizados, para além de qualquer fronteira ou território.

O conceito e a palavra ‘civilizar’ são recentes. O termo apareceu pela primeira vez no tratado educativo de Erasmus de Roterdão, “De Civilitate Morum Puerilium Libellus”, de 1530, um verdadeiro manual de civilidade para os jovens. O texto ensinava, por exemplo, que a sopa deveria ser comida com o garfo, isto porque, naquela altura, a sopa era um alimento sobretudo sólido. Já os cortes de carne deveriam ser retirados da tigela com as mãos pelos próprios convivas. Outro tema educativo do tratado eram os modos no quarto de dormir. Quando se recebia um convidado cabia a este escolher o seu lado na cama. Na hora de dormir, os amigos deveriam manter-se distantes, de costas voltadas, e despedirem-se gentilmente, sem longas conversas, permitindo ao hóspede repouso.

Em “O Processo Civilizacional”, de 1939, o sociólogo alemão Norbert Elias estabeleceu conexões entre a redução da violência na Europa e a aquisição de novos hábitos e práticas ditas civilizadas à formação dos Estados-nação. Tal processo civilizacional iniciou-se na Idade Média e estendeu-se ao século XVII, quando os espaços europeus ganharam contornos mais precisos, constituindo Estados e impérios. A descoberta do ‘outro’, dos bárbaros, a partir o século XIV, com a expansão europeia e o colonialismo, foram decisivos neste processo, porque permitiram que os europeus se afirmassem perante os demais povos como civilizados em contraposição aos ‘outros’, os bárbaros.

O seriado a Guerra dos Tronos passa-se na Idade Média e a sua narrativa dá vida às teorias de Norbert Elias. A frágil paz entre sete reinos é quebrada com a morte do rei. Em simultâneo, os povos bárbaros que tinham sido expulsos por uma coligação de forças instáveis, ganham alento com uma nova rainha, mãe de dragões, que reorganiza os seus exércitos e ameaça invadir os territórios civilizados. Bem, quase civilizados. Em a Guerra dos Tronos a tortura é comum, bem como as decapitações. Naquela época a caça ainda vinha inteira à mesa, numa única peça, e uma vaca podia ser partida com a espada dos convivas. O sexo era permitido em público, independente das vontades, norteado apenas pelo desejo dos mais fortes. Estas são algumas cenas ilustrativas da transição civilizacional que podem ser vistas em a Guerra dos Tronos. Além dos bárbaros, o seriado ainda conta com os ‘outros’, povos desconhecidos e temidos, que vivem para além da muralha (eternamente gelada e protegida por um exército devoto) e que têm práticas bárbaras, como afogar os rebentos femininos.

A menina explodiu-se na Nigéria; os adolescentes assassinados eram americanos; japonês o jornalista decapitado; saudita o blogger chicoteado; as mexicanas estão entre as mulheres mais afectadas pela violência sexual; filipinas as empregadas torturadas; noruegueses os jovens chacinados. Tais horrores têm em comum o facto de terem sido cometidos por nós, humanos, bárbaros. E a geografia, a nação, a cultura ou a crença dos sítios onde foram praticadas tais barbaridades parecem perder relevância.

A redução da violência entre as tribos e os reinos – não só na Europa, mas também na Ásia, na América e na África – deriva e coincide com a formação de estados políticos centralizados e burocratizados, com o refinamento de hábitos e práticas quotidianas, como a forma de comer ou amar, bem como com o florescer da produção artística.

As teorias de Norbert Elias, que escapou dos bárbaros nazistas para a Inglaterra, foram capazes de explicar parcela do processo de unificação dos reinos europeus e da formação do Estado-nação, próximo do modelo que conhecemos actualmente.

Hoje, no século XXI, não há continente ou espaço que não enfrente guerras e actos de barbárie. Há reinos em guerra com povos longínquos, conflitos culturais e religiosos, sem falar da brutalidade do quotidiano, das lutas corpo-a-corpo (o Fernando Jorge cita no seu tratado os empurrões e cotoveladas nos autocarros de todo o mundo). Uma guerra dos tronos está em pleno vigor e expansão, a crescente violência e barbarismo humano evidenciam a guerra. Afinal, somos todos bárbaros, e na nossa infinita e secular brutalidade, não há o que temer, porque tudo é possível.

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