Através da Grande Firewall

[Olhos na China]

 

Wendi Song

Jornalista

 

Tenho uma amiga que trabalha numa companhia estatal em Hangzhou e me visitou há alguns dias. Falámos bastante para pôr a conversa em dia e comecei a mostrar-lhe algumas das fotografias que tirei durante o Occupy Central e que tinha no meu Facebook.

 

“Interessante”, comentou ela. Mas, aparentemente, ela mostrou-se mais interessada nas fotografias que eu tinha lá sobre comida e amigos. Ofereci-lhe o meu computador para que pudesse aceder à sua conta de Facebook, uma vez que ela a usava muito quando estava a tirar o mestrado em Singapura, mas ela não quis. “Não preciso, na verdade. Costumava usar um VPN para me ligar à rede, mas é tão complicado encontrar um VPN disponível, conectar-se e ganhar acesso, e nem sempre é uma conexão estável. Eu não tenho muito tempo para fazer isso, então, gradualmente, eu apenas desisti de atravessar o muro”.

 

O muro ao qual ele se refere é o Grande Firewall, tão famoso e real quanto a Grande Muralha, com uma estrita censura à internet na China.

 

Há dois mil anos, o primeiro imperador da China, Quin Shi Huang, pioneiro na unificação do país, decidiu iniciar o projecto chamado a Grande Muralha. Mas, diferentemente da história frequentemente contada nos guias de viagem – na qual a muralha tinha o propósito de proteger o império contra as invasões dos povos Hun, do Norte -, o primeiro objectivo do projecto era impor um governo centralizado e prevenir o ressurgimento dos proprietários feudais. Na era da Internet, os modos de governação da China não sofreram mudanças profundas. A Grande Firewall (GFW) – uma alcunha dada pelos utilizadores chineses de Internet para o sistema que bloqueia certas páginas e conteúdos virtuais, impedindo-os de serem visualizados no Continente -, na verdade, foi construído com o mesmo propósito.

 

É antiga e conhecida a artimanha do Governo para tentar distrair a atenção das pessoas exagerando sobre as ameaças externas. Na sua primeira Conferência Internacional Mundial, em Novembro de 2014, a China continuou a repetir e a promover a ideia de “respeito pela soberania nacional”, como se houvesse uma grande interferência externa no uso da Internet dentro do país. Mas, na verdade, eles queriam dizer: “concentrem-se no vossos próprios assuntos”. Claramente, a principal razão das preocupações não dizia respeito às ameaças externas.

 

A Internet, sobretudo as redes sociais, tem mostrado o seu poder repetidamente. Assim, o que o Governo está a fazer, por um lado, é aumentar e reforçar o Grande Firewall e desabilitar alguns dos mais usados provedores de serviços VPN desde a última semana – tornando ainda mais difícil e caro atravessar o muro. E, por outro lado, está aumentando a tensão na corda do controlo ideológico.

 

A Grande Firewall é apenas o meio. O controlo ideológico é o objectivo final.

 

Em 2013, o Governo promoveu uma série de mudanças nos quadros do Departamento de Estado de Informação e Internet, e, em 2014, um poderoso comité de internet foi fundado com a chefia directa de Xi Jinping. Em Novembro do ano passado, na primeira Conferência Internacional Mundial, realizada em Yiwu, a China sinalizou ao mundo que está ganhando força a sua fiscalização internacional da rede virtual. Na última semana, o Global Times, jornal de propriedade do Diário do Povo, megafone do Partido Comunista Chinês, noticiou que “A Grande Firewall tem sido alçada a uma questão de soberania no ciberespaço”. A sua influência foi imediata, com dezenas de milhares de utilizadores de VPN encontrando os seus sistemas de iOS sem acesso, especialmente nos serviços do Gmail e do Google.

 

Quando os novos líderes tomaram o poder, alguns observadores estiveram a exaltá-los pela sua juventude e proximidade ao mundo ocidental. Como exemplos, o facto de a filha do Xi Jinping estar estudando em Harvard, ou Li Keqiang ter sido um estudante de direito influenciado por valores ocidentais e ter sido o co-tradutor do mais famoso trabalho de Alfred Denning, o livro “The Due Processo of Law” (uma informação interessante é que o outro tradutor deste livro, Yang Baikyui, foi preso por participar nos massacres de 4 de Junho).

 

Parece que o seu entendimento do mundo ocidental, da internet, tem-se tornado uma faca de dois gumes. Derrubado o Google, reina na China a rede social Weibo, pressionando os Big V’s (influentes contas de utilizador que têm milhares de seguidores e que são verificadas) a postar no Weibo. O bloqueio dos acessos ao Google Drive e ao Gmail forçou os “grupos de legendagem” (redes de tradução de novelas e seriados estrangeiros, filmes e programas políticos) a dissolverem-se, e, até, provedores de VPN foram inabilitados. Estes são apenas alguns exemplos do que se passa na rede.

 

No editorial do Global Times de 28 de Janeiro, comentava se que “Nós não podemos sempre evitar que os jovens chineses não vejam, mas, no seu lugar, precisamos treinar a capacidade deles de ‘verem tudo mas sem qualquer interesse’”.

 

Claramente, eles querem treinar mais e mais pessoas, como a minha amiga, sempre conscientes de que a internet é diferente no mundo exterior. Mas, não querem preocupar-se com a possibilidade de se dar uma olhadela no que se passa, ainda que já tenham colocado em funcionamento a Grande Firewall. Porque eles já estão pondo em prática a “limpeza da internet”.

 

Como uma nota para aquele editorial, na semana passada o ministro da Educação da China declarou publicamente que novas regulamentos serão colocados em prática para restringir o uso de livros ocidentais e serão banidos os “valores ocidentais”. Isto, embora o Primeiro-ministro em seu tempo tenha sido estudante de direito e tenha sofrido a influência de aspectos legais ocidentais (e co-traduzido o trabalho de Alfred Denning), e que a filha do Presidente costumava estudar, ou foi enviada, para Harvard, já para não mencionar as origens do marxismo.

 

Entretanto, como disse uma vez Mao Zedong, “em qualquer parte onde haja opressão, haverá resistência”. A Grande Firewall, claramente, não consegue parar aqueles que estão realmente ávidos por alcançar o mundo livre. Desde o primeiro dia de construção do GFW, existem pessoas que nunca desistiram de olhar através do muro. No passado, a VPN era largamente adoptada como uma “ferramenta de escalada” na China, e cerca de 90 milhões de utilizadores eram estimados pelo instituto “Global Web Index”, quer pela sua conveniência quanto pelo seu custo. Um amigo que trabalha na Microsoft China disse-me que existem outros caminhos para atravessar a GFW. No entanto, estes ainda não podem ser amplamente adoptados por terem um custo muito alto. Mas, ele acredita que com o desenvolvimento da tecnologia, o seu custo pode ser reduzido ou novas tecnologias podem ser encontradas ou inventadas.

 

Desde o seu primeiro dia a internet está crescendo em alguns princípios básicos como Liberdade, Abertura, Igualdade e Partilha. Estes não foram formulados ou decididos em acordo com os valores individuais ou com preferências ideológicas, mas sim escritos no Internet Protocol Suite (IPS), como que escritos em sangue. Estes princípios não são apenas para internet, ou para os assim chamados “valores ocidentais”. Estes são valores universais. Portanto, eles nunca virão a ser proibidos.

 

Regressando no tempo, em 14 de Setembro de 1987 a China enviou o seu primeiro e-mail a partir de Pequim, da Internet para o mundo. Começou com uma frase: “Através da Grande Muralha nós podemos alcançar cada canto do mundo”.

 

Hoje esta frase surge-nos cheia de ironia.

 

 

Wendi Song, jornalista

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