Apertar o cinto de segurança

[Água mole em pedra dura]

 

Catarina Mesquita

 

Vivemos de emoções fortes.

Gostamos de superar os nossos limites. Saltar da Torre de Macau, acelerar na pista de karting de Seac Pai Van ou atirarmo-nos ao trânsito louco de Macau numa pequena motorizada. A lista é infindável de acordo com o desafio que cada um se propõe a enfrentar.

Mas há aqueles que não são uma escolha e temos de os defrontar queiramos ou não. No meu caso tenho fobia de andar de avião e muitas vezes não há outra forma de me deslocar a não ser recorrendo a esse meio de transporte que desafia a lei da gravidade.

Nas viagens, recorro à música para acalmar, ao filme para enganar o tempo e ao calmante nas viagens intercontinentais. Mas mesmo assim vejo que, a cada viagem que faço, o medo cresce e inconsciente depara mensagens que me deixam as pernas a tremer.

Quando aperto o cinto e vejo todos aqueles procedimentos de segurança a lista de problemas possíveis durante o voo começa a desenrolar-se na minha cabeça: falhas de motor, má meteorologia, fadiga dos pilotos… Erro humano! O mais recente exemplo de erro humano é a queda da aeronave da TransAvia cujas imagens correram o mundo e chocam “medricas” como eu, e “fortalhões” para quem voar é uma bênção da tecnologia.

Mas as notícias de quedas de aviões maximizam a tragédia. A queda de um avião é, em especial, uma novela jornalística que se adora alimentar. Se um avião como o da AirAsia se despenha com centenas de passageiros a bordo, segue-se logo para uma “caça à queda do avião” de onde resultam notícias de pequenas aeronaves que se despenham em voos de lazer e o pânico instala-se por uns dias até se ganhar uma nova obsessão.

Não defendo que se deva omitir este tipo de acontecimento – embora defenda que o ignorante é um feliz neste tipo de situações e que, se nunca me tivessem dito que o Aeroporto da Madeira era “perigosíssimo”, aterraria na pequena pista com a mesma descontracção que na longa pista do Aeroporto Internacional de Pequim – mas não devemos exagerar.

A minha fobia nunca me fez cometer aquilo a que os peritos chamam de “no- show”. Nunca tive o bilhete na mão e não “apareci” na porta de embarque. Porém, acho que este termo se deveria aplicar a certas notícias, principalmente no campo da aviação.

A meu ver, quando não há domínio da situação, simplesmente não se deve “aparecer” para lançar naqueles que ainda estão menos informados o pânico com ideias como “era o co-piloto quem estava aos comandos da aeronave”, como se o co-piloto percebesse tanto de aviões como eu.

Infelizmente, não têm sido bons meses para a aviação, em particular na Ásia. No entanto, não seria mal pensado ao final de um ano contabilizar quantas aterragens foram feitas com sucesso. O resultado teria certamente muitos zeros à frente se formos a pensar que de um aeroporto como o de Gatwick, em Inglaterra, saem diariamente mais de 900 aviões.

Talvez estas boas notícias fossem necessárias para ajudar a perder fobias na hora de “apertar os cintos de segurança”.

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