A ascensão do Oriente em meio século    

ULTIMATUM

Isadora Ataíde

Explicar a “superioridade” da Europa a partir do princípio do século XIX, em especial sobre as sociedades orientais, com destaque para a China, foi o objectivo de Jack Goldstone em História Global da Ascensão do Ocidente, 1500-1850, publicado em 2008. Estudos comparativos no campo do desenvolvimento económico e social em análises de longo curso é a especialidade do americano, sociólogo e cientista político.

Goldstone analisou distintos indicadores – dados económicos, perfil tecnológico, comportamento religioso e conhecimento científico, não só aplicado como filosófico, entre outros – para comparar o percurso da Inglaterra e da China, Ocidente versus Oriente, ao longo de 350 anos.

A indústria têxtil, a capacidade de cultivo agrícola, a alimentação da população e o potencial marítimo e militar da China, para citar apenas alguns aspectos, eram superiores aos da Inglaterra, e também da Europa, até ao princípio do século XIX. Nesta época, a burocracia de administração do Estado, o nível de produção científica e artística e o grau de religiosidade ou misticismo destes povos era similar. Em suma, no cômputo geral, a China e o Oriente, estavam à frente da Europa e da ainda incipiente América numa suposta disputa global.

A ultrapassagem e a ascensão da Europa e do Ocidente, na conclusão de Goldstone, deveu-se, por um lado, às transformações sociopolíticas do velho continente a partir do fim do século XVIII. Entre elas, a reconfiguração do espaço, com a afirmação dos países, as revoluções liberais, ao avanço no uso da técnica e da capacidade industrial, a uma viragem nas crenças e práticas religiosas e à emergência de um novo paradigma no sistema de pensamento, no qual afirmou-se uma racionalidade científica e positivista.

Noutra vertente, o avanço europeu foi possível devido à conjuntura do Oriente, em especial da situação da China. O fim de reinado de Qianlong, em 1797, e a consequente fragilidade do Estado, política e militar; os conflitos no interior do país e as dificuldades com os reinos que pagavam tributos à China; a reforma na administração pública e, neste cenário, uma viragem nas prioridades políticas e económicas do império chinês; e, muito importante, o imperialismo europeu, fragilizaram o gigante oriental.

Em síntese, na perspectiva de Goldstone, foram os factores intrínsecos às dinâmicas europeias e também os processos sociopolíticos da China, que conduziram à “superioridade” do Ocidente, processo que se estendeu por 350 anos, mas que foi acelerado na primeira metade do século XIX.

Em 2015, passados 165 anos, a China encontra-se a par e passo com os Estados Unidos, para não falar da Europa, exausta com os seus conflitos e crises internas. Crescimento económico, investimentos em países terceiros, importação de petróleo e construção de infra-estruturas são algumas das áreas nas quais a China é líder, ainda que divida a posição. Mas não só. Entre as mais importantes publicações científicas do mundo encontram-se revistas chinesas, assim como escritores premiados com o Nobel, para usar referências ditas ocidentais.

A China diz-se disposta a negociar com os Estados Unidos a condução do planeta, quer ser garante da segurança no Médio Oriente, por exemplo. Como o Ocidente irá lidar com a existência de dois Super-homens, e se haverá Lois Lanes o suficiente para narrarem os seus dilemas e aventuras, é uma questão em aberto.

Nas últimas semanas, quando as previsões de crescimento da China reduziram-se alguns décimos, o mundo vacilou, esperneou, gritou, e, por fim, pediu medidas urgentes. O Primeiro-ministro Li, no Fórum Económico Mundial em Davos (ainda se fazem Fóruns Sociais?), tratou de acalmar os “parceiros”, de garantir que tudo está a ser feito para garantir a paz e a prosperidade, do Ocidente e do Oriente. E, disciplinado, até cogita reformas fiscais e monetárias para apaziguar os temores dos líderes europeus e americanos.

Em cerca de 60 anos, desde de 1949, a China parece ter recuperado da difícil jornada percorrida no século XIX. As explicações de Goldstone sobre a evolução da Europa e do Ocidente ao longo de 350 anos são precisas. No entanto, bem mais complexo, será explicar a recuperação e a liderança chinesa em coisa de meio século.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s