Ler é o melhor remédio

Catarina Mesquita

Há uns dias, enquanto aguardava o efeito milagroso de um tratamento médico numa marquesa, a doutora alertou-me que teria de ficar meia hora sem me poder mexer com excepção dos braços, dos olhos e da boca. Preocupada que eu morresse de tédio, a atenciosa doutora perguntou-me se eu queria que ela me alcançasse o telemóvel.

Apreciei o cuidado mas neguei o pedido. Preferi antes que me chegasse o livro que trazia na mala, o que provocou uma reacção de espanto na médica, que me confessou que ao longo de vários anos de profissão nunca nenhum paciente tinha negado aceder ao telemóvel e muito menos pedido um livro para matar o tempo.

A estupefacção da médica ficou registada na minha cabeça e comecei a reparar quantas pessoas via nas ruas de Macau a ler. Passaram vários dias após aquele episódio no consultório e a verdade é que apenas me cruzei com um senhor que lia um jornal, sentado à sombra como os velhotes do meu bairro português que de manhã lêem “A Bola” para terem assunto para discutir o dia todo com os amigos de banco de jardim.

Em Portugal, vi ao longo dos anos em que andei diariamente de metro cada vez mais pessoas a lerem — de pé ou sentadas — os calhamaços do José Rodrigues dos Santos, os prémios Leya ou outros títulos que deixei de conseguir decifrar face à dimensão do ecrã do Kindle que o senhor da frente transportava já nos tempos mais modernos.

Mas a tendência, em Macau, parece-me contrária: pouca gente lê para matar o tempo, por mais curta que seja a viagem nos transportes públicos.

Quando questionei uma amiga de Macau sobre este facto ela riu-se, argumentando que numa terra como esta, e perto de uma região de negócios como Guangdong, “é óbvio que as pessoas não têm tempo para ler! Estão ocupadas em fazer dinheiro”.

É assim tão “óbvio”? Para mim seria “óbvio” que em criança se recebessem livros ilustrados com pequenas palavras e que cada criança começasse a ler… depois de brincar muito! A mesma amiga disse-me que aos três anos já lia frases compridas porque na creche não haviam livros com “baboseiras” do género da imagem de um pato e apenas a palavra “pato” a ocupar a restante página.

Hoje, nesta “região de negócios”, saltam-se passos importantes: poucos pais lêem uma história para adormecer os filhos, em casa moram poucos livros que não sejam digitais, e não há vontade de viajar através de um livro.

Quando a internet falhar, a electricidade faltar ou a bateria do telemóvel acabar os livros conseguirão sempre superar estes problemas dos tempos modernos.

A Biblioteca de Alexandria dizia na sua entrada algo como “Aqui cura-se a alma”. Quanto a mim, não posso estar mais de acordo. Sentado num sofá ou deitado numa marquesa de um médico, ler é mesmo o melhor remédio e deveria ser receitado mais vezes em Macau.

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