O meu novo ano chinês

Patrícia Silva Alves

Cheguei a Macau há exatamente um ano. O meu novo ano na China, logo, chinês, começou a 21 de Janeiro de 2014 e terminou ontem, enquanto escrevia estas palavras.

Apesar de ter os pés nesta terra há 365 dias, sinto que ainda sei menos do que quando aqui aterrei. Durante este tempo fui fazendo apontamentos sobre pormenores que me chamaram à atenção e uma frase, lida em Março, adapta-se ao que sinto agora: “Na China não acredite em nada antes de ver. E depois de ver, continue a não acreditar”. É isto.

Mal cheguei, poucos dias depois de ter aterrado, já atirava observações quanto à simpatia dos condutores de transportes públicos. Escrevi: “Os senhores dos autocarros não comunicam quando se fala em português ou inglês ou algo que não cantonês (quanto a mandarim não sei). Fazem só expressões. E esgares. Vou ficar especialista em análise de linguagem corporal”.

Já em Fevereiro descrevia que estar em Macau era como “falar com alguém no Skype que não nos está a ouvir”. No entanto, também apontei que “há sempre pessoas simpáticas, atenciosas e disponíveis em todo o mundo e aqui, num sítio onde as palavras muitas vezes nos falham, isso é reconfortante”. Uma observação que mantenho totalmente – nem vale a pena dar exemplos. Tomar a parte pelo todo é um problema que persiste em Macau entre as comunidades não falantes de chinês. Como a comunicação não flui é preciso que nos agarremos a algo: às ideias feitas. Um erro.

No final de Janeiro já começava a entusiasmar-me com a perspectiva de que aqui há quem veja a sua vida de uma forma radicalmente diferente de mim. Apesar de não acreditar no destino, vejo a realidade como uma linha recta, mas com algumas pedras que nos aparecem pelo caminho (aquela coisa chamada vida) e que isso determina de certa forma o caminho que fazemos.

Para quem pensa assim é bastante diferente ler algo como isto: “O destino não é fatal e as previsões dos adivinhos devem ser interpretadas como a indicação de uma tendência, eventualmente como um aviso, mas nunca como uma sentença sem apelo. Um adivinho vê que em breve adoecerás gravemente? Não é caso para desesperar. Faz ofertas a um templo, ajuda um desgraçado (…) e afastarás a ameaça que, caso contrário, impende sobre ti.”

A possibilidade de instrumentalizar o destino atraiu-me desde logo. Tanto como achei fascinante o culto dos antepassados. Ainda em Janeiro: “Já percebi que há algum suborno divino na ideia – fazem-no para garantir que não lhes é lançado algum azar por um antepassado abandonado e ressabiado. Mas que raio. Nós também o fazemos com as velas. Ao menos são mais criativos”, escrevi no final do meu primeiro mês aqui.

Ao longo dos meses seguintes fui ganhando estupefações mais concretas – e políticas – mas essas tenho vindo a escrever por aqui.

Sobre este ano, fica a sensação que continuo a ter sobre tudo isto. Tal como em Maio: “Acordou a achar que ia devorar o mundo. Mas lá fora não se via ninguém. De ruídos só os seus (e quase se ouviam os seus pensamentos). Isso pouco importava – ia devorar o mundo. Imaginava as pessoas, os encontros, os cheiros. Sabia de cor tudo o que ia sentir quando o dia acordasse também. Até que amanheceu. E foi devorada pelo mundo”.

Macau aconteceu-me. E eu só posso agradecer por isso.

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