Em defesa de Fong Chi Keong

Hélder Beja

Depois das declarações de Fong Chi Keong na Assembleia Legislativa, ainda não houve quem saísse a terreiro para socorrer o homem. Eu, conhecido defensor dos fracos, oprimidos e sodomizados, aqui venho. Quem nunca deu uma palmadinha que atire a primeira pedra.

Numa sociedade castradora, Fong Chi Keong receberia acompanhamento mental. Em Macau, Fong Chi Keong é deputado. E isto, meus senhores, é o que faz desta terra um lugar tão especial. O discurso de Fong merece, portanto, a nossa melhor atenção.

O que Fong Chi Keong disse foi: “Há quem goste de apanhar”. E há mesmo. Esta é uma oração tão verdadeira como ‘o céu é azul’ ou ‘a política de Macau está pejada de homens formidáveis’. Por isso, avancemos.

Entre marido e mulher não se mete a colher, diz o bom ditado português. Fong só veio atestá-lo. Para Fong, as coisas são claras como a água do Canal dos Patos: “Se o marido ralha e a mulher não refila, não vai haver consequência”. O deputado, usando os poderes de uma mente ao mesmo tempo simplificada e tradicional (como os caracteres chineses), resolve numa frase questões que atormentam a humanidade desde que Eva decidiu ir às maçãs sem consultar Adão. Basta então que a mulher não responda para que tudo esteja bem. O marido ralha, como o adepto do Benfica ralha com a televisão ao ver o Glorioso, e num caso como no outro a coisa não passa de um arrufo de sofá. Alguns dirão que, ao estabelecer tal comparação, tentamos objectificar a mulher, mas isso é desculpa de quem não conhece a importância de um bom LCD.

Numa sociedade de consumo, as leis da procura e da oferta são determinantes. Há quem tenha necessidades e há quem preste serviços que suprem essas demandas. Eu, por exemplo, precisei de uma máquina de lavar roupa aqui há atrasado e fui a uma loja do Bazar. Fong, por exemplo, precisava de certas e determinadas coisas e foi casar. “Abuso sexual entre cônjuges? Não sei. Para mim, é uma necessidade. Para que é que se casaram? Não foi para suprir essa necessidade? Se o marido quer e a mulher diz que está ocupada, claro que vai dar problema.”

Atente-se à inventiva desta tirada do ilustre deputado que aqui defendo como o melhor dos mosqueteiros. Não é só transformar o casamento numa prestação de serviços que faria corar a CTM, é também acicatar a ambiguidade. As pessoas casam para suprir uma necessidade. Mas que necessidade? De fazer o amor? De andar à pancada? De passear de mão dada na romântica Rua do Campo? Fong Chi Keong não diz. E não diz porque, como os melhores escritores, Fong quer dar aos seus leitores bastas possibilidades interpretativas. Madame Bovary é uma devassa ou uma alma pura? Leiam lá umas centenas de páginas que eu depois já vos conto, diz Flaubert. Sou mesmo a favor da violência doméstica ou eu mesmo uma vítima incapaz de denunciar a minha senhora, sugere Fong, deixando-nos a salivar pelos próximos capítulos deste folhetim da vida privada.

Certa populaça de mau carácter, como está bom de ver, quer agora organizar uma acção de protesto contra Fong Chi Keong, com o lema “Love me. Don’t beat me”. Não que interesse muito, mas para que todos possamos condená-la aqui fica que acontecerá sábado, às 15h, na Praça do Tap Seac.

Fong Chi Keong, para se livrar de tão vil armadilha, responderá quase à certa com outro provérbio português: ‘Quanto mais me bates mais eu gosto de ti’. E tem toda a razão. Eu próprio estava capaz de fazer tudo para que Fong pudesse gostar mais de mim.

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