O valor vida e suas diferentes interpretações

Sandra Lobo Pimentel

Marco Archer Cardoso Moreira, brasileiro, 53 anos. Sabe quem é? Ou quem era? Preso em 2003 na Indonésia, foi condenado no ano seguinte à pena de morte pelo crime de tráfico de droga depois de ter tentado entrar naquele país com mais de 13 kg de cocaína. Diz a lei que a pena é executada por fuzilamento.

Não foi o único fuzilado no último sábado na Indonésia. Mas é do exemplo mediático deste carioca que cometeu um crime tão longe de casa que nos confrontamos com a brutalidade de alguns sistemas que continuam a aplicar a pena de morte.

Mas… não é só isso. Detenho-me sem conseguir ultrapassar este impasse. Não quero cair na expressão “mais do que a pena de morte é a forma como é executada”. Não faz sentido. Ou “mais do que ser condenado à morte, é sê-lo por um crime desta natureza”. Também não é bem isso.

Já não basta o facto hediondo de se pagar com a vida por qualquer crime. O brasileiro paga com a vida por tráfico de droga. E mais: executado por um pelotão de fuzilamento.

A famosa máxima de “olho por olho, dente por dente” não cabe numa sociedade que se quer humanista e integrante. É demasiado primitivo para os tempos modernos, mas eis que nos confrontamos com um mundo tão desigual, que pior do que se dar ao arrojo de aplicar a lei de Talião, incorre na desproporcionalidade extrema de fuzilar alguém por tráfico de droga.

Se a possibilidade da execução já era chocante, as notícias que nos chegaram no sábado de que foi mesmo consumada, quase me calaram a revolta.

Apesar dos apelos ao mais alto nível que chegaram ao longo dos últimos anos, as autoridades indonésias não acolheram nenhum. Tanto a actual presidente brasileira, Dilma Rousseff, como o seu antecessor, Lula da Silva, tentaram intervir no caso, com um pedido de clemência ao seu homólogo, mas ambos foram rejeitados.

A consternação é evidente. É incontornável. Que mundo é este, tão diferente no valor que confere à vida?

Na mesma zona geográfica, tivemos o Papa Francisco, um líder espiritual, a propósito do ataque em Paris, a reclamar que a liberdade de expressão não justifica o insulto. E com esta posição pública confesso que tive que parar um pouco para assimilar o alcance das suas palavras.

Já não basta todos aqueles que acharam por bem colocar em iguais proporções o direito de se sentir insultado ao direito de retirar a vida a 12 pessoas. Termos o Papa a fazer este apanágio apenas me leva a crer que este mundo em que vivemos anda virado de cabeça para baixo.

Será possível dar argumentos destes com este à-vontade? Será possível que nos peçam para aceitar a brutalidade? A desproporcionalidade?

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