Contra o choque das civilizações, marchar!

Rui Flores

Gestor executivo do Programa Académico da União Europeia para Macau

Os ataques bárbaros à redacção do Charlie Hebdo e a um supermercado judeu em Paris colocaram o tema do combate ao terrorismo no topo do debate europeu. As razões para a actuação dos terroristas e as questões que motivam os atentados – como os da semana passada na capital francesa e outros, alegadamente ligados ao extremismo islâmico – são conhecidas e condenáveis. A resposta dos parisienses, na manifestação gigantesca de domingo, e também de grande parte da comunidade internacional, que quase em uníssono condenou os atentados, além de uma demonstração do estado de choque em que se encontra a Europa revela a importância que é dada ao princípio da liberdade de expressão, pedra angular dos valores europeus.

Esta onda de solidariedade praticamente sem precedentes revela um grande apego ao valor da liberdade de expressão e à tolerância: foram quase 50 representantes de governos estrangeiros nas ruas de Paris, marchando ao lado de François Hollande e dos familiares das vítimas de uma alegada vendeta religiosa na capital que deu ao mundo os valores da liberdade, fraternidade e igualdade. É certo que os eventos foram exacerbados pelas circunstâncias do local e do modo. Uma barbárie no centro da Europa receberá sempre mais cobertura dos media do que um atentado de maiores proporções noutras latitudes, com os efeitos de escala que isso acarreta. A sociedade civil global – pelo menos a do mundo ocidental – não reagiu em massa, por exemplo, contra o atentado que vitimou mais de 140 pessoas, quase todas estudantes, em Peshawar, quando um comando talibã atacou uma escola militar há menos de um mês. A onda de indignação tem que ver com o efeito surpresa que provoca um atentado contra um jornal no centro da Europa. Afinal, uma chacina desta dimensão não acontecia em França há mais de 50 anos. O Paquistão está muito distante deste centro de estabilidade e de progresso que é a Europa. Peshawar, infelizmente, vive noutra “normalidade”. Por mais injusto que isso nos pareça, o jornalismo será sempre motivado pela novidade, o inesperado, o extraordinário, a proximidade, e não pela repetição, a banalidade, o distante.

À estupefacção dos primeiros dias após o atentado, seguiu-se a discussão sobre como assegurar uma integração efectiva das minorias étnicas no espaço europeu e fazer frente ao terrorismo e aos extremistas.

Um combate mais eficaz ao terrorismo passará, necessariamente, por uma coordenação mais próxima entre as diversas polícias envolvidas, sobretudo os serviços de informação, quer ao nível nacional quer ao nível europeu. Decisões pouco populares, em tempos de crise financeira, de proceder a maiores investimentos na área da informação e da segurança terão de ser tomadas. Sobretudo quando a ameaça colocada pelo Estado Islâmico da Síria e do Iraque está longe de ser controlada. E passará, muito provavelmente, por uma diminuição dos direitos de circulação no interior da própria Europa e pela adopção de políticas mais restritivas à entrada de imigrantes. Embora o governo francês tenha sido lesto ao afirmar que não serão tomadas medidas semelhantes às do “Patriot Act”, de George W. Bush, na sequência do 11 de Setembro de 2001, sucedem-se as vozes, como a de Marine Le Pen (que representará nesta altura perto de um terço dos franceses), contra a manutenção de Schengen como um espaço de livre circulação no interior da União Europeia.

Uma certa reacção endémica contra muçulmanos, como grupo, por parte de franjas das comunidades maioritárias – um fenómeno que já estava em crescendo na Europa, como na Alemanha, por exemplo –, faz lembrar que este poderá ser o tempo do choque das civilizações profetizado por Samuel P. Huntington. A tentação para analisar estes eventos à luz dessa perspectiva é grande. É a maneira mais fácil e a que rende mais apoio popular no curto prazo. Sobretudo quando é agitada por políticos à beira de eleições. Mas é a também a forma que garante a perpetuação das querelas, das divisões étnicas e religiosas, do medo. O discurso de que o Islão é uma religião de paz tem de ser repetido, como aconteceu por muitos dos participantes na manifestação de Paris. Mas os atentados, no entanto, levantam, de facto, questões batidas de integração de minorias étnicas. A França do centro da Europa – exposta, por exemplo, à interacção com o norte de África, o leste europeu e o médio oriente – é um país multicultural e multiétnico. Nela abundam as diferenças socioculturais e os bairros que se assemelham a guetos, onde as perspectivas de vida dos jovens estão muito abaixo da média e o número de desempregados muito acima.

A solução não está na ponta de uma varinha mágica nem de um qualquer programa de governo alternativo. Mas passará por políticas efectivas de integração de imigrantes, tal como, muito antes de tudo isto, em Novembro passado, quando visitou o Parlamento Europeu, afirmou o Papa Francisco, apelando para um despertar humanista de uma Europa “envelhecida”. Envelhecida nas ideias e nas soluções. Que o legado de Charlie seja esse: o despertar para políticas efectivas de integração da diversidade, na certeza, porém, de que uma minoria de extremistas existirá sempre. Como sempre existiu.

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