Jornalismo de causas

Isadora Ataíde

Foi a partir da Revolução Liberal, em 1820, que o jornalismo afirmou-se como plataforma privilegiada de negociação dos conflitos sociais em Portugal. Com o liberalismo, singrou um jornalismo político e de opinião que não hesitava em defender as suas causas, apelar a sua ideologia, e criticar os seus adversários. Na década de 1820, os jornais de Lisboa e do Porto cerraram fileiras no apoio a Constituição Liberal ou na defesa da Carta Constitucional. Absolutistas e liberais, também através da imprensa, disputaram palavra a palavra o regime e o poder na década de 1830. A Regeneração, em 1851, produziu acordos entre liberais radicais e conservadores, mas no campo jornalístico não houve consenso e foi nesta década que arrancou a propaganda republicana na imprensa, e o respectivo contra-ataque monárquico, que se prolongou ao século XX.

A tradição de um jornalismo aguerrido e militante, no qual os jornalistas propagavam as ideias e causas dos grupos aos quais pertenciam, espraiou-se para os territórios portugueses de além-mar. Primeiro em Goa e Macau, onde a imprensa independente precedeu os boletins oficiais ainda na década de 1820. Depois, na segunda metade do século XIX, a imprensa floresceu em África. Quando estreavam, os jornais declaravam suas posições políticas e assumiam compromissos com o público. Em Março de 1889, o nº 1 do Arauto Africano, publicano em Luanda, assumia-se como um jornal “que entrará na luta quando for necessário. O seu principal fim é advogar perante os alto poderes os interesses comuns de todos, africanos e europeus”. Já na República, em 1920, o Ecos da Guiné prometia “inspecionar os ramos da administração pública, combater infracções, defender a justiça e o direito”. Em São Tomé e Príncipe, em 1923, A Colónia comprometia-se a “espalhar entre todos ideais que precisam agitar-se, lançar-se opiniões que carecem ser expostas”.

O jornalismo de opinião – que assume causas, propaga ideias e não teme a crítica ao ‘status quo’- não significa faltar com a verdade, a justiça, ou a ética, como bem demonstraram as ‘inteligentsias’ jornalísticas no século XIX, bem representadas, por exemplo, na pena de Ramalho Ortigão, de João Albasini em Lourenço Marques, ou de Eugénio Tavares em Cabo Verde . É com este espírito e nesta tradição, do jornalismo de combate, que esta coluna se apresenta ao público de Macau. O meu compromisso será com a verdade, com a justiça, com o povo e com a terra que me acolhe.

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