Línguas influentes

Ana Paula Dias

Doutoranda na Universidade Aberta

A autora escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

 

A American Association for the Advancement of Science AAS (http://www.aaas.org/) disponibilizou recentemente um estudo com dados interessantes, e eventualmente surpreendentes, sobre a correspondência entre a disseminação da informação e as línguas que a veiculam, baseado em mapas que mostram como as pessoas multilingues transmitem informações e ideias mundo afora – relação esta que não tem uma conexão direta com o número de falantes das línguas, muitas vezes sobrevalorizado e erradamente associado à importância e influência dessas mesmas línguas.

O estudo descreve três redes globais com base em tweeters bilingues, traduções de livros e edições multilingues da Wikipédia e foi levado a cabo por Sahar Ronen, investigadores do MIT e algumas universidades americanas e europeias. A rede de tradução de livros, por exemplo, mapeia quantos livros são traduzidos para outras línguas: no caso de um livro hebraico, traduzido do hebraico para o inglês e o alemão, este é representado através de linhas que partem de um nó do hebraico para nós de inglês e alemão. A rede é baseada em 2,2 milhões de traduções de livros impressos publicados em mais de 1000 línguas.

Para os tweets, os pesquisadores usaram 550 milhões de tweets de 17 milhões de utentes em 73 idiomas. Nessa rede, se uma pessoa escreveu no Twitter em hindi, bem como em inglês, as duas línguas estão conetadas. Para construir a rede da Wikipédia, os investigadores analisaram edições em até cinco idiomas feitas pelos respetivos editores. Em todas as redes, a espessura das linhas representa o número de ligações entre os nós. O inglês tem a maioria das transmissões de e para outras línguas e é a língua central, mas os mapas também revelaram centros intermédios, como o francês, o alemão e o russo, que têm a mesma função numa escala diferente.

A investigação permitiu igualmente constatar que algumas línguas com elevado número de falantes, como o mandarim, o hindi ou o árabe, estão relativamente isoladas nessas redes, o que significa que chegam menos comunicações nessas línguas até aos falantes de outras. Em contrapartida, o holandês, falado por 27 milhões de pessoas, é desproporcionalmente usado em comparação com o árabe, que tem cerca de 530 milhões de falantes. Isso acontece porque os holandeses são tendencialmente multilingues e têm uma forte presença on-line.

Os mapas traçados expõem o que já é amplamente conhecido: o inglês é a língua mais usada e eficaz para divulgar ideias, conhecimentos, etc. Mas os mapas também mostram como os falantes beneficiam por estar indiretamente ligados através de línguas com maior e menor visibilidade. Estas redes são reveladas em detalhe no site do estudo (http://news.sciencemag.org/social-sciences/2014/12/want-influence-world-map-reveals-best-languages-speak ).

Os autores fazem notar que a população estudada não é representativa da totalidade dos falantes de uma língua – trata-se de uma elite porque, ao invés da maioria das pessoas no mundo, é composta por pessoas alfabetizadas e que estão on-line; observam, no entanto, que estas elites das línguas globais são muito poderosas e têm grande responsabilidade porque, mesmo sem que seja o seu propósito, moldam tacitamente a maneira pela qual as culturas distantes se vêem umas às outras.

Em termos práticos, as redes identificadas pelo estudo têm o potencial de disponibilizar orientação aos governos e a comunidades linguísticas que querem mudar o seu papel internacional; se se pretender que uma língua nacional seja mais influente, deverá investir-se na tradução de mais documentos e incentivar mais pessoas a usar a sua língua nacional on-line. Por outro lado, se se quiser difundir ideias e conhecimento, deverá ser escolhida uma segunda língua que tenha boas conexões. Para os não-falantes, a escolha do inglês como segunda ou terceira língua é um exemplo óbvio; para os falantes de inglês, a análise sugere que seria mais vantajoso escolher espanhol em vez de chinês, pelo menos se a comunicação for feita através da escrita.

Os autores salientam ainda que os dados sobre interações em línguas de circulação mais restrita são mais difíceis de obter, mas com a cada vez maior acessibilidade à Internet por parte de um maior número de pessoas no mundo, é possível as comunidades minoritárias conetarem-se com outras línguas relevantes e divulgar as suas ideias e culturas.

Como as metas a atingir e a definição das estratégias para alcançá-las no âmbito do planeamento estratégico das línguas devem ser sustentadas em dados concretos e não em meras declarações de intenção ou retórica política, nunca é demais reflectir sobre o que a investigação nos diz…

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