La vie en noir

Catarina Mesquita

As histórias que contamos todos os dias muitas vezes são mais cinzentas que cor-de-rosa. Não sei se foi a paleta em tons de cinza que se escolheu para escrever a história do jornalismo, ou se o mundo se vestiu de preto e as histórias são cada vez mais negras.

Charlie Hebdo usava paletas coloridas para contar essas histórias escuras. Era um exemplo de espírito crítico e de uma irreverência que nos sacava uma gargalhada perante os piores cenários.

Ontem lia algo que dizia qualquer coisa como “o mundo tornou-se demasiado sério, ser cartoonista se tornou uma profissão de risco”. É verdade. A frase resume na perfeição o que aconteceu na redacção do Charlie Hedbo há dois dias.

Somos demasiado sérios. Enchemos a boca para falar de bons valores, de um mundo melhor, mas deixamos as grandes causas para os outros. E quando de manhã acordamos com a notícia de um homicídio em série na redacção de um jornal em França pomos a vida em perspectiva. “E se fosse connosco?”, pensamos. “A partir de hoje vou ser melhor, vou abraçar mais, vou sorrir mais, vou valorizar mais o próximo …”, prometemos.

Vemos incentivos para fazer mais nos grandes acontecimentos. Assim como aqueles que apoiam os três homens que com espingardas automáticas assassinaram os 12 elementos do Charlie Hedbo e gritaram “Alá é grande” vêem incentivos para continuar a luta de vingança do profeta.

E assim que das capas dos jornais e das aberturas dos telejornais desaparecem as notícias do assassinato no jornal satírico francês, esqueceremos as promessas que fizemos, assim como não nos lembraremos das armas que temos nas mãos para efectivamente lutar por um mundo melhor seja elas lápis coloridos, canetas a preto e branco ou instrumentos musicais.

Charlie Hebdo não foi só um momento triste para o jornalismo mas para a liberdade de expressão, para a luta incondicional pelo fim da violência e de um mundo desigual que é responsabilidade de todos.

Há 70 anos em França, no mesmo país da redacção de Charlie Hebdo, Édith Piaf imortalizava a música “La vie en Rose”. Hoje, passadas sete décadas é lamentável que, para aqueles a quem a verdade sem medo é o único caminho a percorrer, seja obrigatório olhar em volta e a perceber que “la vie” deixa de ser cor-de-rosa e está cada vez mais “en Noir”.

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