Macau ou os meus óculos

Patrícia Silva Alves

Por acaso uso óculos. Sem eles não consigo distinguir um amigo de um perfeito desconhecido ou saber o que dizem as placas escritas à minha frente. Sem óculos, as pessoas que me rodeiam são uma matéria baça, cinzenta (mas que emite sons e me acena quando são amigas). Sem as lentes à frente dos olhos ando como se estivesse numa bolha. E só depois de chegar a Macau percebi que também vivia nela – com ou sem óculos.

Portugal e a sua crise moldam a nossa visão da realidade e só percebi isso agora que estou do outro lado do mundo (aliás, continuo a percebê-lo).
Um exemplo muito concreto: as quebras sucessivas das receitas do jogo. Por defeito profissional, por ter trabalhado numa revista portuguesa em que fazia artigos na área de economia, sigo, interessada, a evolução do sector do jogo. E percebi nesse exercício de observação que ao contrário da maioria das pessoas à minha volta, era das poucas que se inquietava com as quebras das receitas de jogo. Inquietar no sentido de ligar os alarmes e achar que era um assunto que iria marcar a actualidade como uma guilhotina ameaça o pescoço. Não foi isso que aconteceu e, agora, depois de várias insistências para perceber porquê, percebi que havia algo de diferente no meu olhar: a amplitude.

A crise em Portugal faz-nos o mesmo que um dia de grande stress: fecha-nos sobre nós mesmos. Limita os nossos horizontes e faz-nos encarar uma pedrinha como um pedragulho, um índice vermelho como um sinal de alarme.

Até agora não sabemos que consequências terão estas quebras nas receitas do jogo e o quão definidoras serão, mas percebi que a minha ânsia a olhar para os indicadores se devia a um facto simples: estava habituada a ver o curto-prazo como uma deadline.

“Ou se cumpre o défice ou há mais impostos”

“Se os juros da dívida subirem é mau sinal para Portugal”.

Quando se diz que a crise rouba o futuro é também isto: vivemos constantemente a pensar no curto-prazo. Esse sentimento não é apenas deixar de esperar ter oportunidades de futuro. É mesmo não conseguir ver o futuro nem enquadrar o presente com o passado.

Quanto a Macau – os meus óculos, pelo menos nesta questão -, penso que está a acontecer o fenómeno a que chamo, a partir de agora, “sabedoria do conselho da avó”. Ou seja, apercebemo-nos agora que aquela frase (ou ditado popular) repetido pelos nossos avós anos a fio e que nos fazia apenas encolher os ombros tem, afinal, um sentido de ser. Para usar uma expressão feita: há alguma razão para aquela frase ser repetida ao longo do tempo.

É isso que está a acontecer com a mais que gasta expressão “diversificação económica”. Podemos dizer que neste momento a sua repetição é ouvida de outra forma. Ou, para usar o paralelo com os óculos: agora está a ser vista.

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