Feriados merecidos

[Água mole em pedra dura]

Catarina Mesquita

Colocamos em cima da secretária um calendário novo. Mas antes temos de lhe virar as páginas ainda a cheirar a tinta só para ver rapidamente em que dias da semana calham os feriados, com quantos dias de lazer vamos ser presenteados e quantas tolerâncias de ponto existirão.

Venho de um país onde se subtraíram os dias de ócio e onde datas importantes se eliminaram do calendário, tornando esses dias de festa em dias como os outros.

Mesmo que hoje poucos saibam que o 1.º de Dezembro era sinónimo de “Restauração da Independência” a verdade é que, para uns, aquele feriado dava sempre jeito para ir às compras de Natal e a obrigação de ir trabalhar é uma penitência maior que subir as centenas de degraus da escadaria de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego.

A questão dos feriados, como qualquer corte, é melindrosa. Havia quem defendesse, em Portugal, que passar a trabalhar num feriado ou nos dias de greve dava mais despesa às empresas do que “fechar a loja”. Lembro-me de ouvir vozes indignadas que diziam: “Gasta-se em papel, em água e em electricidade”, alegando que uns diazinhos de folga até deixavam a “malta” mais contente.

Mas Macau não sofre destas metástases de um cancro económico.

Folheando o calendário, Macau é premiado em 2015 com 20 feriados, somados a sete dias de tolerância de ponto para a função em pública. Parece que o estado da economia se pode dar a estes “luxos”. O banco pode fechar uma semana inteira por causa da festa cristã do Natal e para não desfazer os mais entusiastas do Ano Novo Lunar, encerra-se uma semana no ano novo chinês.

Então, já com o calendário pousado sobre a secretária e com um plano de férias esboçado na cabeça ou na agenda, está na hora de se arregaçarem as mangas.

O ano abre com as notícias da queda das receitas do jogo e do preço do metro quadrado em Macau. Do impedimento de Emily Lau de visitar Macau. De velhos problemas que fazem estalar o verniz da “brilhante Macau”.

E a teoria de Kondratieff entra mais uma vez em acção: crescimento, recessão, prosperidade, depressão. Ciclos: não há como escapar deles.

Em 2015, algumas pessoas verão, sorridentes, Macau a afirmar-se novamente como a região mais competitiva da Ásia. Outras nem tanto. Uns revoltar-se-ão que os autocarros estão cheios, as ruas cheias de pessoas, enquanto outros se regozijam com o número de visitantes que entram diariamente pelas portas de Macau.

Muitos quererão “fugir” do pequeno território agora com fronteiras abertas por mais tempo, enquanto muitos não quererão mais nada do que passar tempo infinito (ou enquanto o dinheiro durar) nas maiores salas de jogo do mundo.

Será difícil contentar todos, e os desafios são mais do que muitos.

Com o virar do calendário acredito que Macau ainda será terra de oportunidades. Mas não por obra do destino, das estrelas que se alinharam às 12 badaladas da passagem do ano, mas pelo esforço, pela vontade, pela rebeldia, pela insistência e persistência e pela superação aos obstáculos. Assim daqui a um ano vamos poder olhar para trás e perceber, orgulhosamente, o quanto trabalhámos e bem, e como ainda foi possível, nisto tudo, ter tempo para gozar os feriados e as tolerâncias de ponto.

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