Um ano de ironias  

Maria Caetano

Este foi um ano de ironias profundas e, se risíveis por momentos, para o futuro lamentáveis. Se chegamos ao dia 31 com a sensação de que há um horizonte de novidade que se abre com a formação de um novo Governo e empurrados para novos desígnios arrebatadores por força da desaceleração da indústria do jogo, reflictamos um pouco no desenrolar dos acontecimentos que, ao longo de um Verão quente, e de um Outono de arrefecimento, podem bem trair a nossa auto-confiança.

A terminar 2014, celebrámos efusivamente o princípio de “Um País, Dois Sistemas” com honras de Chefe de Estado e garantindo ao Governo Central que bem sabemos o que Deng Xiaoping avistava de longe: a conclusão é a de que avistava muito amor e devoção à pátria – que como toda a gente sabe é sinónimo do sustentáculo político da nação, o Partido Comunista Chinês. E quase nos esquecemos de nós, no enlevo de tanto manifesto amor em tempos de crise antecipada.

Foi também de Pequim que veio a nova elevação do conceito de Estado de Direito [essa ideia ironicamente estrangeira que não colhe tão bem quanto o sufrágio universal] a efígie poderosa a ser conservada na lapela de todas as instâncias decisoras do Continente e arredores. Em Macau, a sua íntegra compreensão teve efeitos inéditos: organizadores de um referendo civil foram detidos quando propagandeavam nas ruas um inquérito à opinião dos cidadãos sobre a hipótese de sufrágio universal do Chefe do Executivo. A nossa Administração fez saber que interpretou a lei de modo a estarem essas detenções perfeitamente legitimadas, e os nossos tribunais asseguraram que isso mesmo acontecia.

Ao mesmo tempo, o nosso Governo, ontem e hoje, está apostado na excelência académica, pelo que as universidades andarão sob critérios apertados de internacionalismo – ainda que venham a persistir na tendência de se verem livres de académicos que teimam em ter actividade cívica paralela. Os restantes parecem ter ficado naturalmente ensimesmados nas suas opiniões.

Macau, cidade internacional de turismo e de lazer, aberta ao mundo, ao universo, lugar de encontro com o Outro, por excelência. Mas, redobremos cuidados, pois não vá o Outro cair sob a classificação de força externa dada a ingerências. O aviso está feito.

Vejamos, mais, por onde testar a validade dos argumentos da nossa esperança em 2015: o jogo, naturalmente, pão nosso de cada um. Pois, as receitas abrandam – como o Governo previu com efeitos retroactivos já em Dezembro – mas o volume bojudo das contas dos casinos promete ainda ser almofada para grandes desenvolvimentos. Curiosamente, porém, há operadoras de jogo a aliciarem os seus funcionários com apetitosas licenças sem vencimento. Toda a gente sabe que é esta a ordem natural das coisas na relação entre patrões e trabalhadores.

A maravilha das fronteiras, para nunca mais intermitentes, vai deixar que se evada também qualquer indício de claustrofobia. Poderemos, como diria Li Gang, constituir juntos “uma Macau no Continente”, quem sabe uma espécie de cidade utópica lavada e de raiz. A abertura, garantem-nos, e uma vez nós já lá fora, vai servir ainda o esvaziamento da bolha imobiliária – que, ao contrário do que é costume nestas coisas, já todos viram mas ninguém confirma que existe. À cautela, não olhemos os desencorajadores números do preço do metro quadrado em Macau – todos garantem que caem mas, esses sim, ainda ninguém os viu cair.

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