Em natalício

Filinto Elísio

Escritor

Macau

Chego num fim-de-semana a Macau. A azáfama do jogo, condicionada pela chegada do Presidente da República Popular da China Xi Jinping para as comemorações do 15° aniversário da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Pergunta-se, nas ruas apinhadas de gente, pela língua portuguesa. Por gente amiga em terra estranha, como teria dito Camões, quando cruzou o Rio das Pérolas. Um encontro com o médico cabo-verdiano José Gabriel, amigo de longa data, numa livraria portuguesa, é um bálsamo para assaz interrogação. A cachupada que se seguiu na antevéspera de Natal, em bonita convivência com os médicos cabo-verdianos e promotores de uma associação cultural, foi motivo para falarmos da erupção vulcânica no Fogo, do atual cenário político e de, algo mais importante, sobre o que já não queremos para Cabo Verde. Prevaleceu ali, sob o diáfano “céu de Veneza” de um dos hotéis-casinos, algo no ar…

Pequim

A véspera do Natal passei-a em Pequim. Num restaurante indiano, em convívio  entre familiares e amigos. Éramos oito. De países diferentes: Cabo Verde, Croácia, Benin, Camarões, Brasil e Bolívia. Foi um momento sublime, tão multilingue e multicultural, quão intergeracional. Sendo ali o “kota de serviço”, mas recusando a ideia do patriarca, quis entoar para os convivas o “With a Little Help From My Friends”, música com que Joe Cocker fez estremecer Woodstock,  em 1969. Não o fiz, pois nem todo o ímpeto merece palco, mas fiquei convencido que esses estudantes, amigos do meu filho, já não queriam o “jingle all the way/oh what fun it is to ride/in a one-horse open sleigh”, que o homem de Calcutá reservara para o nosso jantar.

Tianjin

À porta do hotel, em Tianjin, mais precisamente no jardim que se prolonga para a beira do rio, dois grupos de pessoas faziam exercícios. O primeiro grupo, mais ruidoso, dançava o La Bamba, em chinês e em ginástica rítmica. O segundo grupo, mais silencioso e contemplativo, fazia os lentos movimentos de Tai Chi. De repente, as duas China (ou se calhar mais até, já que imperceptíveis) se encontram.

Ternura

Se há palavra que me encanta é a ternura. Um argentino, Che Guevara, de quem muito gostava (e ainda gosto), por todas as razões e mais uma, teria dito: “Hay que endureserse, sin jamas perder lá ternura”. Outro argentino, o Papa Francisco, por quem devoto respeito e simpatia, afirmou, agora na missa  Urbi et Orbi (para a cidade e para o mundo): “Como o mundo precisa de ternura hoje!” Um pouco, por todo o lado, andamos carentes de ternura. Entre nós, na família, na sociedade, na política e no que mais se queira, sobra em crispação o que falta em cordialidade, como sobra em maledicência o que falta em serenidade. Também nós, sem que tenhamos de expor a nossa falsa morabeza (só “blue”, dir-me-ia Pranchinha), precisamos trabalhar esta “Alzheimer espiritual”.

Tangerina

As pessoas só podem dar o que têm. Tão simples como isso. Os budistas defendem que a macieira não pode parir tangerinas. Sem ser budista, isso já o sabia. Assim como a pessoa recalcada, traumatizada e infeliz não pode transmitir bem-estar aos demais. Nesse sentido, permitam-me que vos diga que tive uma infância bonita. Os meus pais arranjaram tempo para o amor, o lúdico e a educação. Tempo para o diálogo. À mesa da nossa casa, havia sempre argumentação e humor, troca de ideias e nenhum domínio da razão. Por isso, não pretendo ser dono da verdade, nem quero perder a tolerância. Tão pouco, embora sartreano, seja o outro esse inferno. Em verdade, mantenho-me em ternura para com o outro.

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