“Dê cá um bacalhau!”

[Água mole em pedra dura]

Catarina Mesquita

O avião descolou à hora combinada e o Presidente nem ficou para ver o fogo de artifício que à noite iluminou o céu de Macau. Mas até o cheiro da pólvora da celebração dos 15 anos de transferência de soberania já se evaporou no ar.

Na rápida visita de médico, o Senhor Presidente fez o diagnóstico a Macau: a região tem uma saúde que deve ser vigiada. Deve alimentar-se os mais novos com uma educação patriótica, manter uma harmonia social e diversificar a economia para que Macau possa viver uma longa e próspera vida como fez nos últimos 15 anos.

Nós que escrevemos, lemos e falamos português sentimos os ânimos a acalmar e é altura de regressar a casa temporariamente ou de celebrar por cá, tentando fazer filhoses com canela a preços de ouro, vinho português e bolos-reis encomendados.

Em breve, portugueses que somos, estaremos sentados à mesa e com sorte a saborear um belo prato de bacalhau, associando o peixe à tradição.

Todos os anos a minha dúvida resiste: porque é que um peixe que nem é pescado nas costas portuguesas é símbolo da nossa identidade? Enfim, globalizações! Mas é curioso saber que o bacalhau seco se globalizou principalmente por ser um peixe fácil de levar na mala.

Recordo-me de um ano em que fui passar o Natal aos Estados Unidos da América. Tal como eu, no voo, iam centenas de portugueses visitar os familiares. Na altura ainda não havia regras de segurança apertadas como hoje e ainda se podia levar um garrafãozinho de cinco litros na bagagem de mão. Na minha memória ficou gravado o momento em que, quando surgiu o sinal de apertar os cintos na aproximação a Boston, grande parte dos passageiros se levantou e começou a pegar nos sacos prontos para sair do avião. Mas o mais engraçado não é constatar que tantas pessoas viajavam de avião pela primeira vez e que não sabiam que ainda faltavam pelo menos trinta minutos para terminar a viagem transatlântica. O mais curioso foi mesmo o cheiro que saía das cabines onde estavam guardadas as bagagens de mão: vinho e, claro, bacalhau.

E foi aí que descobri que estejamos onde estivermos a tradição é levada ao seu mais alto nível. Natal sem bacalhau não é Natal. Português que não come bacalhau não é português… ou não fossemos nós os consumidores de 25 por cento do consumo global da espécie de peixe.

Agora que o apetite chega mais voraz do que em qualquer outra altura do ano, de mim ficam os votos de Feliz Natal e de Xi mensagens, avisos ou incentivos dependendo de como os quisermos interpretar.

A verdade é que nesta visita tão rápida do Presidente não houve tempo para que o Senhor Xi pudesse ouvir o tanto que ainda lhe havia para contar e até lhe estendermos a mão e, à boa moda portuguesa, pedirmos: “dê cá um bacalhau”.

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