Macau, 15 anos

Editorial

Maria Caetano

O poema de Adé reza, em jeito efectivo de oração, que esta nesga de terra foi algures no tempo abençoada pelo criador. O seu mito fundador, A-Ma, é também o de uma história de protecção maternal. A baía exterior de Macau é uma ravessa segura e o seu porto interior é lugar de descanso das embarcações, onde a água apenas sobe, sem bater com violência. Na história, Macau acolhe e refugia, abraça e harmoniza. Na sua imagem internacional, Macau é – ou era pelo menos até há pouco tempo – fenómeno de prosperidade inédita por ser vista como a única economia sustentável e sustentada numa única actividade económica.

A mitologia de Macau é a de um abrigo onde tudo se resolve prodigiosamente bem, e até as peças dilatam e se encolhem para encaixar em lugares de mau recorte. É o local onde os jornais poderão arriscar um dia a manchete “Está tudo bem” ou “Não se passada nada”, sem serem execrados pela opinião pública no dia seguinte – porque o mito envolvente sempre acalentou esta bela ideia de um silêncio conveniente e confortável.

Nos últimos dias, e com a aproximação do aniversário da RAEM, os seus infatigáveis balanços, estamos a ser inundados com mil ideias que desafiam a mitologia de Macau. Podemos continuar a repeti-la, mas já custa um bocadinho fazê-lo sem afastar o olhar, coçar o nariz, sem denunciar que não acreditamos muito no que estamos a dizer. Está quase tudo em cima da mesa, o que está mal, à vista de todos.

O que podemos exigir, hoje, de nós e dos outros, sem cair na tentação de um desembaraço fácil dos problemas herdados, que como que não nos pertencem? Como não nos esgotarmos com um mutismo envergonhado e desistente? Como continuar a sentir uma empatia em relação ao que procede de nós, mas com que não nos identificamos? É o desalento de uma má obra, que não podemos arrasar e que nos sobreviverá. E da imensa tarefa de consertá-la.

O que sinto de quem aqui vive, de uma forma geral, é uma forma afectuosa de dizer ‘Macau’ – até RAEM, essa sigla que se apoderou dos discursos e dos corações, por arrasto e equivalência. A gente diz Macau, sobretudo estando fora, e sorri por dentro – acho eu. “Amar Macau”, parangona oficial, não está em causa. O que há é outro mito, o de Macau e dos seus vilões, a íntegra e os desonestos, num retrato onde se calhar não nos pomos no quadro – digo eu que, pelo sistema não participado em que habitamos, tendemos a não nos pôr no quadro das responsabilidades.

Mas, enfim. Queria dizer: amar Macau não é difícil. O que é difícil, suponho, é amar as pessoas. Lembro-me de ouvir de um arquitecto de Macau, Manuel Vicente, numa entrevista, uma coisa que ficou cá comigo com esta forma: para fazer alguma coisa boa é preciso gostar um bocadinho das pessoas para as quais fazemos essa coisa. Se não, saem-nos coisas sem alma. O arquitecto falava de habitação pública, como a de Seac Pai Van, ontem visitada por Xi Jinping, o Presidente, que está em visita a Macau. É preciso ser um bocado moralista para pôr o tom aqui, e isso não faz mal. Mas é preciso gostar das pessoas para se gostar seriamente de Macau.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s