O que é Macau sem as suas fronteiras?

Patrícia Silva Alves

Praticamente desde que me conheço que não sei o que é uma fronteira. Para mim, ir a Espanha sempre foi tão simples como pegar no carro, andar lá dentro muitas horas e, de repente, começar a ouvir locutores espanhóis na rádio e ver campos que sempre me pareceram mais verdes. O meu conceito de fronteira era a placa que dizia “España” e que eu via a mais de cem quilómetros por hora. Atravessar para o lado de lá demorava um segundo e eu tinha de estar atenta para o ver – podia mesmo perder o momento. Para quem, como eu, foi criado numa Europa onde se circula livremente, o conceito de fronteira quase não existe: a distância entre dois países depende apenas da nossa vontade de lá ir.

Vim para Macau com uma vontade enorme de conhecer a estranha China. Se fosse possível tinha saído do aeroporto e ido imediatamente a Zhuhai, a Pequim, a Xangai, a todo o lado (estou sempre a mudar as preferências de cidades).

E eis que, aterrada aqui, me deparo com um cenário saído de um livro de Alves Redol: nunca estive tão longe de casa e, ao mesmo tempo, nunca me senti tão na aldeia. Para ajudar a compor a minha imagem mental, Macau até tem as vizinhas montanhas da China. Aqui eu não sabia o que existia para lá da montanha porque não podia ir lá. Afinal, precisava dessa coisa que só raramente vi no passado: um visto. A China estava tão longe, sentia. E com sarcasmo pensava que só me faltam as ovelhas e um rio cristalino para viver na rural Vila Franca de Xira de Redol.

Para além da distância burocrática, quanto mais me embrenhava na actualidade local, mais o fosso aumentava. Sei de cor todos os secretários de Macau e os principais problemas daqui. E ali de Zhuhai, que sei eu? Quase nada. Apenas que as casas são mais baratas; que em breve os preços vão subir e que tem um salão aeronáutico internacional. Quanto mais tempo aqui passo, mais o rio das Pérolas me parece mais largo.

À distância dos meses percebo as razões políticas e históricas que justificam o fosso entre os dois lados, mas a verdade é que aos olhos de quem chega – aos meus, pelo menos – isso não fazia sentido. A mensagem que me foi logo passada dizia algo como: “As pessoas do outro lado são diferentes”. Não são de carne e osso, pensava eu?

Hoje, quando este jornal estiver nas bancas, será o primeiro dia que Macau e a China Continental vão estar ligadas 24 horas por dia. Não sei o que isso vai mudar em Macau – se nem consigo entender o presente que me rodeia, nem me atrevo a imaginar o futuro. Mas, no entanto, sei que ao longo da história Macau sempre foi conhecido por ser o porto de abrigo de tudo e todos que acabaram por fazer desta terra uma excepção: um sítio onde se podia fazer às claras tudo o que era proibido noutros locais, onde o mundo cintilante dos casinos existia ao mesmo tempo que a China se afundava na miséria e que era tão internacional nas gentes como a China era monocromática no seu verde caqui e vermelho sangue.

Uma das leituras mais interessantes que me deram sobre o afastamento entre os dois lados é de que Macau sempre foi a segunda vida para quem foge do passado. Milhares viajaram para esta terra sem querer olhar para trás. Fugiam da pobreza, da perseguição chinesa, das convulsões políticas nos países asiáticos vizinhos ou somente à espera de ter uma vida melhor.

Não sei o que vai mudar agora que esta terra é cada vez menos a excepção – o que seria de Macau se as leis e os hábitos tivessem sido iguais a todos os outros? Parece-me que Macau se tornou Macau por causa das suas fronteiras rígidas. Esta terra sem elas vai ser, sem sombra de dúvidas, diferente. Resta esperar para ver em que sentido. O que há, afinal, do outro lado das montanhas?

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