Adolescência

Catarina Mesquita

Quando cheguei a Macau sabia muito pouco sobre a terra para onde me tinha mudado. A única ideia que tinha do território era uma imagem turva da réplica das Ruínas de São Paulo que tinha sido especialmente criada para a Expo 98 e que, durante anos, guardara na memória. Se fechar os olhos lembro-me que havia um dragão e mesmo que continue a fazer mais força para me lembrar de mais alguma coisa a minha jovem memória da altura não reteve muito mais. “Macau era um território português e tinha umas ruínas e pronto.”

E, tal como eu tinha, dezenas de jovens em Portugal têm a mesma sensação. Quando disse que me ia mudar para aqui grande parte das reacções não passavam disto: “Ah! Macau! Era português…”, “tenho um tio/primo/conhecido que lá vivia…”, “Macau é a terra dos casinos…”, “Pois… Macau… (silêncio)… Hum… É tão longe!”

E lá vim eu sem saber bem mais do que aprendera na escola, muito pouco na verdade e, cheia de vontade de ver as verdadeiras Ruínas de São Paulo.

Nesse belo dia não consegui esconder o espanto ao olhar para o postal de Macau ao vivo e a cores. “Isto é só a fachada”, pensei desiludida. Nada mais havia para ver naquele monumento que emoldurou o meu imaginário durante anos. Apenas a fronte do antigo edifício e pouco mais.

Ao conhecer outros recantos de Macau, recuperei a desilusão inicial mas ao mesmo tempo percebi que em Macau não são só as Ruínas que, como a bela expressão portuguesa indica, “são fachada.”

A região está absolutamente transformada e é agora uma adolescente que celebra 15 anos após a adopção da grande mãe China.

A menina Macau está na flor da adolescência. O seu corpo já cresceu até aos 32 quilómetros quadrados mas tem borbulhas no rosto. Na cara que se queria lavada nasce quase todos os dias mais um andar de um dos novos grandes empreendimentos como acne que se propaga de poro em poro.

Está na idade “namoradeira” e muitos são os que por ela estão apaixonados. Vejam-se os turistas que chegam aos milhares da China Continental, os jogadores dos casinos que lhe insuflam o ego a cada dólar de Hong Kong inserido na slot machine cheios de paixão nos olhos pelo território.

Como qualquer adolescente deixa que os conselhos dos mais velhos lhe saiam dos ouvidos à mesma velocidade que entram mas, ao mesmo tempo, não deixa de fazer o que a mãe lhe manda para parecer bem comportada.

Há aqueles que nunca deixam de ter a inconsequência infantil e continuam repetidamente a cometer os mesmos erros ao longo da vida. A adolescente Macau acenderá quinze velas este fim de semana e ao soprá-las pedirá o seu desejo.

A mim, resta-me pedir que cresça com maturidade, a pensar no futuro e na sustentabilidade daqueles que sempre cá estiveram e até daqueles que um dia cá podem vir parar e, nada sabendo sobre Macau, não se desiludam percebendo que há tanto de inteiro neste território como de “fachada”.

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