Do Quénia a Macau são uma casa, um terreno e 42 quilómetros de distância  

Um quê de quoi

Cláudia Aranda

A história do maratonista do Quénia que corre para juntar dinheiro e comprar um terreno na sua aldeia natal nas terras altas de Eldoret e que continua a correr velozmente para conseguir agora construir uma casa terá atraído a atenção de alguns, bastantes, leitores deste jornal – eu incluída.

Enquanto a segunda vitória do queniano Julius Maisei na maratona de Macau terá provavelmente passado despercebida a uma boa parte das pessoas no território, a história de que o atleta corre mundo para investir numa modesta plantação de chá lá nas montanhas de Cherangani a quase três mil metros de altitude fez tilintar campainhas: um terreno no campo? Para quem vive em Macau, por exemplo, não há como sonhar um dia ter uma casinha no campo. Esse é definitivamente um dos luxos maiores para quem aqui vive confinado a meia dúzia de metros quadrados, pagos a preço de ouro, afundados numa atmosfera altamente poluída.

Julius Maisei é um queniano a ganhar mais uma prova que tem sido mais ou menos monopolizada pelos atletas daquele país africano, que só excepcionalmente são ultrapassados pelos vizinhos africanos da Etiópia. Tanto na prova masculina como na feminina são homens e mulheres do Quénia que têm arrebanhado praticamente todos os pódios das provas de maratonas por esse mundo fora.

O que faz a diferença nesta notícia, desta vez, é que a história do atleta vencedor em Hong Kong e em Macau ganhou uma dimensão humana: Julius Maisei corre, não em busca de fama e glória, mas sim de um sonho, que poderia ser o de qualquer um de nós, de uma casinha no campo, nos extensos e verdes pastos de Eldoret, conhecida pela fábrica de queijos, onde a indústria têxtil compete com a concorrência asiática, a terra origem de uma boa parte dos atletas maratonistas do Quénia, sede do centro internacional de treino de corrida em altitude.

Julius Maisei não será o último e também não é o primeiro a investir o dinheiro dos prémios da maratona na sua terra natal de Eldoret. Antes dele um outro maratonista, Lucas Sang, um herói nacional no Quénia, atleta nas olimpíadas de Seul, de 1988, também se tornou agricultor. Seria morto à catanada, algures a caminho da sua quinta, em Eldoret, em Dezembro de 2007, durante a crise política, étnica e humanitária que provocou um banho de sangue naquele país africano com uma indústria de turismo no valor anual de mil milhões de dólares.

Na altura uma comissão eleitoral de umas eleições controversas foi acusada de manipular votos e de fraude para garantir a permanência no poder do presidente Kibaki, um Kikuyu, – o maior grupo étnico do país – que tinha como principal oponente Raila Odinga, um membro do grupo étnico Luo – proveniente precisamente de Eldoret – grupo que se sentiu ultrajado com os resultados das eleições. Kibaki ainda chegou a ser empossado numa cerimónia organizada em tempo-relâmpago, mas não demorou nem sequer meia hora para o país ser lançado no caos total. Em Eldoret várias dezenas de Kikuyus acabariam por morrer a 1 de Janeiro de 2008 na igreja à qual a multidão enfurecida lançou fogo. Ouviram-se os gritos ao longe e viu-se o fumo negro subindo em espiral O problema político transformou-se numa disputa territorial, com membros de uma tribo a virarem-se contra a outra num conflito terrível que pôs a nu algumas das questões fundamentais de sobrevivência das populações naquela região: a pobreza, a pressão demográfica nas zonas agrícolas de terrenos férteis e a escassez de recursos naturais tão básicos como terras aráveis e água potável – um problema universal, que afecta populações no mundo inteiro e, convém não nos esquecermos, também, na China.

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