Xi Jinping lendo Eça de Queiroz

O Detective Selvagem

Hélder Beja

Xi Jinping está a ler “A Cidade e as Serras”, por sugestão de um conselheiro que segue de perto a literatura portuguesa e deu com a entrevista recente de António Lobo Antunes: “Quem é que o nosso século XIX tem para apresentar? O Eça e o Camilo. Uma vez vi uma crítica inglesa ao Eça que o destruía por completo porque o comparava com escritores de quem ele era contemporâneo. São estes nomes [Conrad, Tolstoi] de que falamos. E de facto ao pé deles ele é um pigmeu”.

Comovido pela pequenez do país e dos seus autores novecentistas, como tantas vezes acontece face aos mais débeis numa pátria tão justa quanto a Grande China, o conselheiro pôs-se a ler Eça. Podia ter começado com “Os Maias” e aí teríamos boas novas sobre o incesto e outras algaraviadas familiares na China; ou com “O Crime do Padre Amaro” e nesse a caso a Igreja seria ainda mais bem tratada no Continente. Mas começou por “A Cidade e As Serras” e os governantes chineses embeiçaram com os capítulos em que se faz o elogio do campo por oposição à cidade, pensaram em rojões e em bom vinho, sonharam com Joaninhas.

Vai daí, querendo sempre o melhor para a maioria e buscando o bem comum, decidem enviar artistas para o campo, onde deverão viver com o povo de modo a “formarem uma ideia correcta do que é a arte”. E do que é a vida!, acrescento eu ao ouvido destes mandriões criativos à deriva na cidade.

“―Sim, é talvez tudo uma ilusão… E a Cidade a maior ilusão!” Não sou em que o diz, é o pigmeu Eça pela boca desse príncipe de Tormes que é Jacintho. “―Certamente, meu Príncipe, uma ilusão!”, responde Zé Fernandes, seu fiel amigo. “E a mais amarga, porque o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só n’ela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacintho! (…) Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se desumanizam!”

Eis pois o que, na perspectiva do Governo Central, está acontecer aos artistas destas bandas – a desumanização. Enviá-los de novo para o campo, como no tempo do outro senhor, não só não é mau como “vai dar um grande impulso aos artistas, ajudá-los a ter uma visão correcta da arte e a criarem mais obras-primas”.

Se dúvidas houver sobre por que deixar a cidade, voltemos ao Eça: “Assim, meu Jacintho, na Cidade, n’esta criação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através d’arames ― o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião… E aqui tem o belo Jacintho o que é a bela Cidade!”

Não só tudo isto é bem certo como o facto de a personagem que o diz se chamar Zé, um homem do povo, torna os argumentos mais válidos. Porque é mesmo para o meio do povo que talvez Ai Weiwei, Lin Tianmiao, Liu Wei, Zeng Fanzhi, Yue Minjun e outros que andam por aí, esculpindo sementes de pedra e pintando sorrisos e caretas sem fim, vão dar com os costados. Irão contactar e conhecer as “bases, as comunidades, as aldeias e as zonas mineiras” com o objectivo de “realizarem trabalho de campo e terem experiência da vida”.

A partida de Paris para a serras, essa, será de antologia. Como Jacintho na obra queiroziana, assomarão à porta de seus quartos, revestidos de flanelas leves, d’uma alvura de açucena, pararão lentamente à beira dos colchões e, com gravidade, como se anunciassem o seu casamento ou a sua morte, deixarão desabar sobre as suas famílias esta declaração formidável: “―Zé Fernandes, vou partir para Tormes.” “O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D. Galião: ―Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?…”

Com ou sem antecedentes criminais, quereis saber o que acontecerá, então, já nos verdes campos? Deixarão de ler os pessimistas, Eclesiastes e Schopenhauer, e pararão também de dar nas drogas químicas, cedendo apenas à boa ervinha, e tudo será diferente. “―E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparável beleza d’aquela serra bendita! Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, n’este seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, d’um verde tão moço que eram como um musgo macio onde apetecia cair e rolar.”

Com sorte, se bem que estatisticamente será isto do mais difícil de atingir, terão também no campo “uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira”. Ali, ao quentinho, poderão encher a pança e a alma com a comida picante das “comunidades de minorias étnicas das zonas de fronteira e noutras zonas que tenham sido determinantes para a vitória na guerra revolucionária”.

Tempos depois, visitados por suas famílias, acostumadas a homens e mulheres vergados pela viciosa existência urbana, serão eles e elas uma revelação, como foi Jacintho para Zé Fernandes volvidas umas semanas em Tormes.

“Jacintho já não corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de super- civilizado, o ar montesino, ou vida mais verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. Até o bigode se lhe encrespara. E já não deslizava a mão desencantada sobre a face, ― mas batia com ela triunfalmente na cocha. Que sei? Era um Jacintho novíssimo.”

Só assim, com novíssimos e reconvertidos artistas e Jacinthos, pode a China retomar o caminho da glória. Aos que hesitarem, Xi mostrará o livrinho do pigmeu Eça e a frase mais sublinhada de todas:

“―Então vem admirar a beleza na simplicidade, bárbaro!”

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