Erupção vulcânica na ilha do Fogo

Filinto Elísio

Escritor e poeta

Não me é fácil escrever sobre as coisas dolorosas. Faço-o sob condicionamentos emocionais, nem sempre bons parceiros, mesmo em se tratando de escrita criativa. A crónica, em meu olhar, terá de ser o tanto de factual quanto de ficcional, na dose virtuosa em que o emocional e o racional se encontram.  Nesse sentido, o quadro catastrófico resultante da erupção vulcânica na ilha do Fogo é algo que me entristece sobremaneira. Assistir a pessoas aflitas, em evacuações dramáticas, perdendo seus teres e haveres, muito do construído, me deixa, como bem gosta de pontuar alguém que me faz parelha, com “natureza difícil”. Pressentir o estado da devastação ecológica na zona de Chã das Caldeiras, onde, até há dias, por entre clareiras de pedra calcinada, brotavam frutas e frutos, e dos vinhedos se fazia esse néctar, o Vinho da Chã, tudo isso, mais a própria parte do povoado da Portela, agora reduzido a cinzas, me devasta a alma. Como escrever no meio dos fogos e gazes, em que tribos engalfinham-se nas razões da política, com acirrado fanatismo ideológico? E como escrever neste estado de torpor?

Contrito

Acho que ando de braço dado com as minhas angústias e minhas dúvidas. Não que, dobrando os cinquenta, queira ter crises de quarenta. Nem que, em solilóquio ou em contrito perante Deus, queira eu recusar o cálice, afinal bebida por todos no cada dia. Será que estamos no caminho certo? Será que há caminho? Haverá porto seguro? Agora, o meu pensamento vai para as pessoas que, na ilha do Fogo, se agitam perante o ditame eruptivo do grande vulcão. Sem veneração aos homens, nem genuflexo perante poderes, quero voar para além do limite e flutuar no improvável. Como se explica tanto imponderável? A lógica das coisas se encadeia e a ordem das causas é sempre aleatória. Lembro-me de uma frase de Airton Monte, saudoso cronista cearense, amigo já partido desta vida descontente, como eu viciado em Luís de Camões e em Jorge Luís Borges que, em dias neurasténicos, dizia: “Livrai-me, Senhor, dos que, ao invés de contarem piadas, “causos” e lérias, teimam em discutir política com acirrado fanatismo ideológico”.

Global Mediation Rio

Participei, há uma semana, da Global Mediation Rio, um fórum de grande dimensão, em que a toada era abordar outras formas de acesso à justiça, que não aquelas judiciais e mesmo judiciosas. Sem colocar em causa o Direito Positivo e o Sistema de Justiça instituído, tornou-se mister vasculhar e encontrar formas mais dialogantes e mais harmoniosas de encarar os conflitos. A mediação, baseada na autonomia da vontade das partes, poder ser um importante motor para inverter o excesso de judicialização e, em certa medida, o colapso do aparelho judiciário, de cuja morosidade que apresenta nos processos pendentes é apenas a ponta de um iceberg. A quota maior, estando submersa, quando não cuidada, chega a ser inoperante e, sabemo-lo bem, tenebrosa. Foi uma oportunidade para me aperceber de doutrinas canónicas, propedêuticas e desafiadoras do Direito e como estas já se dialogam, à luz da complexidade, com outras áreas. Aliás, só assim foi possível, estar um poeta no painel, aparentemente da seara dos juízes, desembargadores, advogados, autoridades policiais e outros titulares e servidores da Justiça. Afinal, o próprio aparato judicial dos nossos países carece de mediação. Assim falou o fórum do Rio de Janeiro. É hora de ouvir o cidadão. A cidadania.

 

Dezembro

Creio que, mercê do frio, a minha escrita fica mais interrogativa nos começos de Dezembro. Pelo menos quando me deparo com a escrita poética. Será que um bom poema nos irrompe quando estamos tristes? Será que a metáfora que levamos latente se aflora à pele quando estamos na contagem decrescente do ano? O ano é como um rio que vem desaguar no nosso íntimo estuário e nos deixa o ranço das muitas águas, da hidra espessa à mais levezinha, das horas que nos passam. O cronista é simulacro de muita coisa. Às vezes, só de nuvem. Outras vezes, só de viagem. Quando não, que nem Alberto Caeiro, pastor da paisagem. Guardador de Rebanhos, como dizia o mestre do alto da sua simplicidade. Saio à janela, como se antes estivesse sequestrado de mim próprio, e olho para o universo dezembrino.

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