“Também aconteceu no meu país”

Patrícia Silva Alves

Há poucos dias comentei com uma amiga da Roménia a detenção de José Sócrates. Relatei-o com o entusiasmo de quem conta algo inesperado e pensei que só esse facto – um antigo alto dirigente do Governo do meu país foi detido por suspeitas de corrupção – seria suficiente para lhe arregalar os olhos. Não foi. Ela olhou para mim com um ar impávido que não me pareceu ter a ver com a distância geográfica e psicológica entre a Roménia e Portugal. Percebi de imediato o porquê da sua expressão. “É a primeira vez que isto acontece”, expliquei.

Em 2012, o ex-primeiro-ministro romeno foi detido e condenado a dois anos de prisão. Pouco depois dois antigos ministros da Agricultura também foram presos por corrupção – daí a sua falta de surpresa.

Em Portugal, a detenção de Sócrates é alvo da atenção de todos e a forma como jornalista e o aparelho judicial têm lidado com isso tem sido muitas vezes o prato preferido dos comentários. Há exageros, sim, mas em todo o caso convém não esquecer o essencial: um ex-primeiro-ministro foi preso por suspeitas de corrupção e ninguém pensaria que isso pudesse acontecer.

Habituámo-nos à impunidade, tal como nos habituámos a ficar mais pobres todos os anos. A raiva, a revolta, o rancor e a resignação. Todos passámos por isso e todos sabíamos: a Justiça não era igual para todos.

Na última semana, assistimos a casos em que o jornalismo deu lugar ao justiceirismo e em que por vezes se sente a felicidade sádica de quem se delicia a ver um inimigo a ser cozinhado no seu próprio veneno.

Mas convém não esquecer de quem estamos a falar. Sócrates é para muitos o rosto da crise em que o país está mergulhado. Durante o seu tempo de governação, Portugal afundou-se e a pessoa com máxima responsabilidade nunca conseguiu responsabilizar-se por nada. Há sempre razões, estatísticas, números, contextos económicos. Mas uma coisa é certa: quando Sócrates viajou para Paris, Portugal estava à beira da bancarrota.

O clima de acerto de contas que hoje existe com o ex-primeiro-ministro é o mesmo que colou 1,6 milhões de pessoas aos ecrãs da televisão para ver o seu regresso numa entrevista à RTP. A pergunta é a mesma: quando se vai responsabilizar? Há pessoas com azar, claro. Mas o azar não dura para sempre. Sabemos que a sorte dá trabalho, então o que dizer a todos os azares que aconteceram a José Sócrates? O empolamento a que hoje assistimos hoje sobre as opiniões sobre o ex-primeiro-ministro é também a acumulação de todas as dúvidas que nunca foram esclarecidas durante o tempo em que esteve no Governo. É o somatório dos anos em que todos ficámos mais pobres sem nunca percebermos muito bem porquê.

Hoje Sócrates tem uma condição humana e isso é o que causa estranheza – nunca a teve.

E a surpresa que isso me causou e que deixou a minha amiga da Roménia impávida só mostra o estado a que chegamos: para nós, um primeiro-ministro preso nunca foi normal. Também como não se esperava ver José Sócrates numa condição em que tivesse de responder às perguntas que lhe fazem – agora vai ter de o fazer.

Ter poder no Portugal de ontem era ganhar também imunidade. Agora, quando alguém de um país estrangeiro me disser que o seu primeiro-ministro foi preso por suspeitas de corrupção, eu vou dizer: “Também aconteceu no meu país”. É que quer queiramos, quer não, a corrupção acena a todos quantos têm poder. Não haver casos de corrupção descobertos não é sinónimo de bons políticos – é também de uma Justiça adormecida.

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