Muito “à frente”…

Territórios da Língua

Ana Paula Dias

O South China Morning Post (SCMP) publicou recentemente um artigo cujo título, em português, será qualquer coisa como “Detenhamos o declínio inegável dos padrões de inglês em Hong Kong”. São pelo menos três as considerações que suscita: que existe um padrão de inglês em Hong Kong, que ele é percebido como um ativo e que a opinião pública reflete e se preocupa com a questão.

O artigo refere que de acordo com um estudo efetuado anualmente pela EF (Education First), a proficiência da população em inglês caiu para o 31º lugar, ou seja, desceu nove posições no ranking global e que Hong Kong ficou apenas um pouco à frente da Coreia do Sul, do Japão e da Indonésia no ano passado, tendo sido ultrapassada por Shanghai, Pequim e Tianjin este ano. Acrescenta que quem tem experiência direta desses lugares provavelmente chegaria conclusões diferentes e que este tipo de estudos deve ser encarado com cautela, pois os resultados poderão ter sido desviados pelas amostras – mas o facto de eles provocarem um debate aceso diz muito sobre as preocupações das pessoas de Hong Kong sobre a sua proficiência na língua.

O artigo do SCMP sublinha ainda que a competitividade das empresas locais depende da sua capacidade de comunicar eficazmente na língua internacional e alerta que a própria Câmara de Comércio Americana observou que competência em inglês enfraqueceu visivelmente. O texto termina sublinhando a necessidade de maiores esforços para manter o padrão de inglês num nível satisfatório.

Esta questão do “padrão” é importante porque, se a transportarmos para Macau e estabelecermos um paralelo, verificamos que embora as estatísticas (Censos, 2011) indiquem que 2,4% da população fala português como língua estrangeira, essa proficiência não é qualificada e os dados empíricos disponíveis sugerem que a língua falada está longe de um “padrão” satisfatório. São disponibilizados regularmente dados numéricos relativos ao número de pessoas a aprender a português na região, mas esses não são acompanhados de uma caraterização que permita entender o que isso significa realmente, nem de uma avaliação que vise validar modelos e aperfeiçoar a qualidade das aprendizagens.

Para além de uma ou outra louvável iniciativa pessoal já desenvolvida neste sentido, seria importante que também as entidades oficiais ou privadas, locais ou não locais, ligadas ao setor levassem a cabo estudos deste tipo em Macau, para avaliar o impacto e a qualidade de projetos ou medidas destinados a promover e ensinar a língua portuguesa. Fala-se constantemente dela como um activo, da sua importância e relevância para “os mercados lusófonos”, do “grande interesse” pela sua aprendizagem, do aumento de iniciativas e financiamentos destinados à sua promoção e ensino, do “crescente número” de pessoas a aprendê-la, multiplicam-se cursos e formações… e a opinião pública congratula-se e boa nova partilha-se e difunde-se convicta e alegremente. Mas o que a experiência de quem por cá vive permite constatar não é brilhante e seria importante, para não dizer essencial, avaliar qual é a real competência, proficiência e qualidade daqueles e daquilo que fazem a matéria dessas notícias.

Se as pessoas de Hong Kong são menos competentes em inglês do que antes continuará a ser discutido por lá, onde a discussão já vai muito “à frente”- por cá, seria bom iniciá-la, começando por definir qual o “padrão” que se pretende atingir …

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