Uma medida inestimável

Maria Caetano

Não acredito que não haja projecções calculadas, e não apenas meros palpites, quanto ao impacto que a medida de abertura da fronteira por 24 horas deverá ter em diversos aspectos da vida de Macau: trânsito, transportes, comportamento do imobiliário, segurança, frequência turística nos espaços de jogo do Cotai. Não é simplesmente possível. É possível admitir prudência na divulgação dos cenários, mas não é admissível que, publicamente, não haja um número, um conjunto deles, para apresentar.

Macau anda há meses, há anos, a falar na abertura das fronteiras em permanência. Andamos há anos a preparar-nos para isto, a falar sobre isto, a interceder junto do Governo central a cada reunião da Assembleia Popular Nacional, a reunir com as mais relevantes instâncias do Governo Central, a conjecturar benefícios. No plano pessoal dos cidadãos, a hipótese elevou-se ao campo das certezas: há investimentos, casas compradas em Zhuhai, crianças e jovens a estudar na província vizinha, muita gente que já faz uma vida transfronteiriça.

O planeamento económico, na sua dependência externa, nunca foi o forte das sucessivas governações de Macau. O comportamento do jogo, por exemplo, continua a ser uma variável mais ou menos imprevisível, fruto das restrições à atribuição de vistos individuais. É quase compreensível que se viva numa espécie de corda bamba, embora o relacionamento do Governo local com as autoridades centrais devesse permitir muito maior coordenação.

Neste caso, a medida de abertura permanente de fronteiras tem vindo a ser discutida estreitamente – supomos nós – com as autoridades do Continente. A própria renitência em avançar com ela faz pressupor que alguma conjectura a travava até aqui. Não será possível traçar cenários e prever hipóteses de modo algum?

Por exemplo, não se está propriamente perante um mercado livre do lado de lá da fronteira e o comportamento dos operadores turísticos terá a sua dose de previsibilidade e acordo. Como não saber se os autocarros de turismo vão de facto recorrer ao circuito da Ilha da Montanha para dar entrada no Cotai? Há infra-estruturas para isso? Incentivos?

Um dos efeitos muito genericamente equacionados é o da descompressão do mercado imobiliário de Macau. Mas quantas pessoas poderão efectivamente mudar para o lado de lá da fronteira? Que efeito tem o novo horário de fronteira para quem compra habitação por investimento e não para morar?

Até aqui, a zona do Porto Exterior tem condensado muita das actividades – lícitas e ilícitas – relacionadas com visitante-jogador que permanece por um dia e aguarda o último barco nocturno ou o primeiro barco do dia para um regresso a casa. O que será do ZAPE e do movimento do Porto Exterior? Como deverá ser mobilizado o dispositivo de segurança local a pensar no atravessamento permanente do Cotai?

Quero acreditar que estes mínimos ponderáveis que nos ocorrem em cinco minutos de conversa foram alvo de reflexão pelo Governo e que, algures, nas gavetas dos gabinetes, há estudos, projecções e planos B para todas as situações. Caso contrário, com uma Administração que tanto estuda as suas matérias, será uma decepção assistir a este vazio de expectativas. E, tarde ou cedo, andaremos em medidas de remediação calculadas a olho.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s