Onde está a plataforma?

Patrícia Silva Alves

Aterrei em Macau sem ideias feitas. Troquei de emprego e atravessei o mundo porque sim. Pode dizer-se que vim com as certezas de quem não sabe onde se vai meter. Sabia que se comunicava por gestos nos supermercados e que era preciso memorizar as formas dos enlatados quando se queria repetir uma boa compra, mas no geral sabia que era possível sobreviver – não falar a língua aqui não era o fim do mundo.

Mas ao chegar percebi que era o fim do mundo tal como eu o conhecia. Em nenhum local como em Macau senti que a percepção do espaço fosse tão refém da língua.

“Não falo chinês e por isso a cidade é mais pequena para mim”. Esta frase, dita por uma pessoa conhecida, martelou-me a cabeça durante alguns dias até que eu percebesse o seu sentido inteiro. A realidade aqui não tem tanta profundidade aos meus olhos. As vozes que se ouvem na rua são ruído e os estímulos visuais (escritos) são praticamente vazios.

Por essa razão, Macau obrigou-me a treinar o olhar. Sem palavras que me descodificassem a realidade, agarrei-me às expressões das pessoas, aos seus comportamentos e à beleza da cidade.

Mas tudo isto é como estar dentro de uma fotografia – a imagem não fala, não me explica o que estou a ver.

Em Macau vivo numa bolha de Portugal. Vou à Rua do Campo e posso ir despachar assuntos aos Correios de Macau. A minha amiga chinesa vive noutro mundo. Ela vai à 水坑尾街 e despacha assuntos nos 澳門郵件. Cada uma está na sua bolha – eu em Portugal e ela em Macau. Tanto que, e tenho quase vergonha de o admitir, quando cheguei cá tinha a clara percepção de que ela vivia num local muito longe (o que era mentira). A lógica involuntária da minha mente era: como podíamos viver perto se estávamos cada uma no seu mundo? E isto não tem a ver com o facto de nessa altura não conhecer a geografia de Macau. Era mesmo a minha percepção subjectiva do espaço.

Macau é conhecida por ser uma plataforma – o encontro de culturas e ponte entre Oriente/Ocidente, etc. Todos os que vivem cá sabem que isso é mentira em 90 por cento dos casos. Macau não é a plataforma que se vende. Quase nunca passamos a fronteira para o lado de lá.

Eu vivo numa cidade ainda mais pequena do que a da minha amiga chinesa. Dei a volta ao mundo, mas a verdadeira fronteira está à minha frente – é a língua. E passa-la custa muito mais do que todas as horas de avião e euros que se gastam para vir cá parar. Só se vive Macau em pleno se se decifrar os sons e os caracteres chineses. Até lá vivemos numa ilha.

E eu tenho vergonha disso. Estou aqui há dez meses e não sei falar. Por minha culpa, Macau é uma fotografia superficial da realidade e muito mais pequena do que a sua geografia.

Há muitas desculpas para não aprender a língua – aquelas que todos conhecemos – mas a culpa de a plataforma ser um termo tão gasto como a palavra crise em Portugal é só uma: nossa.

E não me interpretem mal – não defendo o fim do português aqui. Sei que a língua portuguesa é parte essencial de uma certa identidade local e que devemos preservá-la. O que defendo aqui é apenas a honestidade quando se olha para a questão da língua: Macau nunca foi portuguesa. Ignorar isso e agir como se alguma vez tivesse sido é tão injusto como visitar a casa de um conhecido e obriga-lo a fazer-nos o jantar. A culpa de a plataforma não ser realidade é só uma: nossa. Minha.

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