Um incêndio que nos deixa a alma em carne-viva

Cláudia Aranda

O incêndio que matou quatro pessoas, quatro imigrantes, dois filipinos, dois indonésios, na semana passada, num alojamento improvisado numa sobreloja de um estabelecimento de roupa próximo do Jardim Luís de Camões deixou a descoberto a extrema desumanidade que se pratica todos os dias nesta cidade.

Deixar que seis pessoas vivam amontoadas num sótão esconso, sem saída nem escapatória de um incêndio é uma crueldade de que somos todos testemunhas, uma atrocidade de que somos todos cúmplices.

Não podemos fingir que não sabemos, que nunca ouvimos falar, nem tentar fugir à realidade perversa, que se vive todos os dias nesta cidade.

Somos todos culpados por negligência, porque nada fizemos nem fazemos no nosso dia-a-dia para mudar a situação. As histórias contam-se, sabem-se, chegam-nos em primeira mão ou pelo Facebook, sob a forma de anúncios, propostas de partilha de quarto com “flat mates” e “room mates” de ocasião.

Não é uma realidade tão remota esta, de nos sujeitarmos a viver em condições sub-humanas. Ontem foram eles, amanhã poderemos ser nós, nesta cidade cruel que nos obriga a todos a filipinizarmo-nos um pouco todo os dias, porque o mercado cruel e anarquizado do imobiliário assim nos obriga, a submetermo-nos ao que for necessário pelo direito a um tecto – esconso.

Um crime destes merece que 20 mil, 50 mil, 100 mil pessoas saiam à rua a gritar o seu protesto contra as situações revoltantes em que vivem e trabalham e se sujeitam muitos imigrantes em Macau. Os filipinos, os indonésios, os chineses, os russos, os brasileiros, os romenos, os franceses, os ucranianos, os portugueses, há tantos imigrantes por aí.

Reclamemos sim, pelo aumento do subsidio de residência de 500 patacas, exijamos que o salário mínimo seja introduzido de uma vez por todas, que esse salário que seja universal, que todos tenham direito a seguros de saúde e de vida, obriguemos a que se descubram os culpados materiais daquelas mortes hediondas, para que a culpa, a morte e o crime deixem de uma vez por todas de morrer solteiros nesta terra.

Esta cidade decididamente já não é para sonhadores.

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