“GoldenEye”  

PODE IR À SUA VIDA

Sandra Lobo Pimentel

O programa de vistos “gold” levado a cabo pelo governo português é talvez a face mais visível da diplomacia económica que passou a fazer parte das missões das embaixadas e consulados espalhados pelo mundo. Mas em nenhum outro lugar como na China o programa tem tido tanto sucesso, com uma fatia de cerca de 75% das autorizações atribuídas.

Sabe-se do apetite dos chineses endinheirados por um passaporte europeu e num país mergulhado numa crise económica como Portugal, passou a vender-se “barato” tudo o que havia (há) para vender. Até passaportes…

Sempre vi este programa com o olhar cru de quem não acredita em saídas fáceis, tão típicas dessa forma de estar e desse “chico espertismo” tipicamente portugueses.

Daquilo que me foi dado a perceber em algumas conversas em Portugal, tanto no seio da imprensa como no ramo imobiliário, a bomba estava para rebentar. A possibilidade de haver esquemas associados a este programa mede-se na proporção da facilidade com que se especula no sector imobiliário. Somado ao estado débil das finanças, era caso para adivinhar que o programa de vistos “gold” estava perfeito para quem tivesse “olho” para ele.

As buscas e detenções efectuadas no final da passada pela Polícia Judiciária vieram apenas dar razão a quem alertou para a situação. O impacto que a diplomacia económica teve no sector foi a especulação pura e dura. A possibilidade de adquirir autorização de residência por meio de investimento no imobiliário até podia ser boa ideia, ainda que o país precisasse mais de outro tipo de investimento, e com esta saída fácil na lógica de dinheiro na mão, as restantes possibilidades perdem expressão. Mas o “bolo”, pelos vistos, já tinha donos.

Já há 11 detidos, entre os quais o director nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, e o ministro da Administração Interna português, Miguel Macedo, já se demitiu. Em Portugal, já há quem peça a interrupção do programa, e lá se vai o grande trunfo da era das missões diplomáticas modernas e inovadoras…

Ainda assim, a pressão já começou. A Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário pede que continue, lembrando que o programa captou um investimento estrangeiro de 1076 milhões de euros, dos quais 972 correspondem a aquisição de imobiliário nacional.

Só em Outubro deste ano, foram investidos 108,3 milhões de euros em imobiliário, considerado “o melhor registo mensal desde que foi criado” o programa.

Macau também tem tido o seu papel, juntamente com Hong Kong, pela mão do consulado geral. O cônsul geral Vítor Sereno, disse a este jornal que a promoção do programa vai prosseguir, conforme as instruções de Lisboa, mas ressalvou o “papel acessório” do consulado nos processos, cuja autorização de residência, o grande objectivo de quem investe, é dada pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

O assunto é delicado e é sempre, diria, surpreendente, ver “rolar cabeças” entre figuras bem posicionadas no poder político. Aguardamos notícias sobre a investigação, também para ver até onde vai a “teia” de quem teve olho para o programa dourado. E se por cá a promoção vai ser o que era…

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