A importância de não fazer

O Detective Selvagem

Hélder Beja

O mundo está cheio de pessoas que fazem coisas. Macau, então, é um sem fim de pessoas e de coisas a acontecer. Delimitemos como campo para este texto a criação artística ou criativa; e entendamos a expressão “fazer” como síntese de “trazer para a esfera pública aquilo em que se está a trabalhar”. Defendamos, partindo daqui, a importância de não fazer.

É tão fácil virar ‘artista’ em Macau como desempregado em Portugal. Acontece sem grande esforço e, normalmente, durante mais do que um curto lapso de tempo. Digamos que se amanhã me levantar com vontade de fazer uma exposição fotográfica – a que chamarei pomposamente a minha primeira individual ao nível da imagem estática – não só isso é possível como tudo correrá de feição. Encontrarei um espaço, conseguirei algum apoio financeiro, terei um relativamente conhecido artista local a assinar um texto inócuo de apresentação da mostra, os jornais farão entrevistas comigo, a televisão talvez, num dia bom, a inauguração chegará com salvas e brindes de champanhe, às tantas aparecerá um representante do Executivo para vincar a importância das indústrias criativas, ainda vendo umas quantas peças na base da amizade e enceto uma carreira a todos os títulos medíocre. Isso mesmo, medíocre.

Numa cidade em que se publica um livro ou se faz parte de uma exposição sobre escritores só porque se alinhavou e mal umas quantas ideias em forma de texto; em que imagens de iPhone podem valer exposições; em que baixos produtos de vídeo recebem o nome e o tratamento de filmes; em que se mostram em galerias pinturas e outras peças sem alma; numa cidade assim a importância de não fazer é fundamental.

Experimentar, falhar, voltar a tentar, falhar, aperfeiçoar, falhar, insistir e voltar a falhar as vezes que for preciso é um processo decisivo na criação, é o autor a bater vezes sem fim contra o muro até perceber que metros ao lado há uma porta por onde pode passar – ou até nunca dar com a porta e acabar por desistir. Deste processo, do labor aqui posto, pode que saia então qualquer coisa digna de ser apresentada à esfera pública. Aí, o autor, mais ou menos convencido da qualidade do seu trabalho, faz – expõe-se, desnuda-se e sujeita-se à crítica, que deve ser tão justa quanto assertiva.

Só assim, com uma crítica implacável – que deve começar nos seus pares e acabar naqueles que de certo modo estão legitimados a pronunciar-se –, só assim pode o autor evoluir, crescer e fazer crescer os seus mundos interiores. Isto, bem sabemos, não existe em Macau.

O discurso do “o que é preciso é fazer” tem quase tudo para dar errado. Aplicado à criação artística, é nas mais das vezes uma pequena tragédia estética e uma almofada para a preguiça das mentes. Porque na verdade não é preciso fazer nada neste mundo aos gritos. Fazer para quê? O que é preciso é fazer bem. Daí a importância de não fazer, de o autor ter a liberdade e a capacidade de não fazer, de não mandar cá para fora, para o público, todo e qualquer trabalho, por mais insignificante que seja – e, excepção feita a uns quantos cérebros iluminados, muito do que se cria no tempo de uma vida é insignificante.

Seria bom que as oportunidades que Macau oferece para que quem aqui vive possa experimentar novos caminhos artísticos não fossem utilizadas com leviandade. E muito menos que a mediocridade fosse depois legitimada por todos, com palmadinhas nas costas e acepipes.

Criar é, e deve ser, coisa séria e que todos podem e devem experimentar. Mas já dizia o outro: quem não tem unhas não toca guitarra. Não fazer é tão ou mais importante do que fazer. Às vezes, quietinhos é que estamos bem.

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