Loy (Loi) Krathong ลอยกระทง

Rui Rocha

*Diretor do Departamento de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua Portuguesa, Universidade Cidade de Macau

(O autor escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

O sagrado é, no dizer de Mircea Eliade, um elemento estrutural da consciência e não uma fase da história dessa consciência. Muito recentemente Miguel Real (O Futuro da Religião, Vega, 2014) retoma a reflexão sobre a universalidade e intemporalidade do sentimento do sagrado, enquanto construção interna ao pensamento humano,“um domínio que supera a mera circunstancialidade social, abrindo-se a um reino da espiritualidade no qual vigoram os grandes temas da existência humana”.

Miguel Real diz ainda que essa espiritualidade é “arreligiosa, um sentimento aberto e sem conteúdo que as religiões intentam preencher através das vozes dos profetas, dos messias e dos homens santos”. Essa espiritualidade aberta e sem conteúdo no (re)encontro, no (re)ligar com o Registo Primordial da Vida, com o Cosmos, é sugerido, por exemplo, pelo budismo Zen do modo mais simples, mais natural, sem rituais ou liturgias exteriores, mas apenas através de um encontro consigo próprio e com o todo que o rodeia.

Porém, a subtileza dessa experiência dificilmente consegue ser explicada por palavras pela generalidade das pessoas. Daí a necessidade de ser sugerida por símbolos que podem ser objetos ou significantes apenas, que representam algo invisível, atribuindo-lhes um sentido profundo para nomear ou aprofundar o significado real da palavra ou revelar uma particularidade mágica ou encantatória da palavra escrita, investindo-a de grande poder simbólico.

Os símbolos, enquanto construções culturais, são importantes para a coesão social e para o sentimento de pertença a uma comunidade ou a uma nação. A sua natureza coletiva exprime-se em momentos fortes de celebração e de festas rituais, de natureza religiosa, que constituem o calendário e que materializam o Tempo e o transformam em qualquer coisa de durável. A primeira das formas da memória colectiva é a repetição da Origem. Daí a evocação cíclica do mito, em datas fixas, com as respetivas festas comemorativas, tais como o Loy Krathong na Tailândia, o Ano Novo (chinês ou ocidental), o dia nacional de cada país, etc., que são sempre uma reatualização da Origem, um novo Nascimento.

O culto da Água é uma dessas evocações cíclicas da Origem e é um fenómeno transversal a todas as culturas. A água é o fundamento do mundo inteiro (da Natureza), da vida (as águas primordiais), da vegetação, da imortalidade, da fecundidade (da terra, dos animais, da mulher), da cura (a água da vida), da purificação (o batismo), “a substância primordial de que nascem todas as formas e para a qual voltam, por regressão ou por cataclismo” (Eliade). Esses cultos estão presentes em muitas tradições mitológicas desde a préhistória até aos nossos dias.

O festival Loi Krathong, na Tailândia, é um exemplo vivo de festival de culto da água, porventura o mais belo e mais romântico dos festivais da água na Ásia. Tem lugar todos os anos no 12º mês lunar tailandês e em noite de lua cheia, habitualmente em meados de novembro (este ano no dia 6 do corrente mês) e marca o fim da estação das chuvas e o período do ano da principal colheita de arroz. A palavra Loi significa “flutuar” e Krathong significa “recipiente” tradicionalmente feito de folha de bananeira em forma de lótus e utilizado para conter flores, velas acesas, paus de incenso, uma moeda e outras oferendas. Este festival destina-se a: a) cultuar a Deusa da Água (dos Rios e dos canais), Phra Mae Khongkha พระแม่คงคา, como fonte de vida; b) solicitar o perdão da deusa do pelo mau uso da água, poluindo-a; c) oferecer flores, velas e incenso em homenagem à Sagrada Pegada de Buda; d) eliminar a má sorte dos anos anteriores; d) desejar um feliz e auspicioso ano novo.

Os krathong, iluminados pela velas em noite lua cheia, são deitados às águas dos rios e dos canais e as pessoas expressam os seus desejos, designadamente os namorados, acreditando que serão atendidos se o seu krathong se mantiver acesso até se perder de vista.

Esta festividade, não sendo embora um feriado nacional na Tailândia, é muito importante para a tradição rural do povo tailandês que depende muito das águas dos rios (mae nam) e dos canais (klong), cujo volume e qualidade são fundamentais para as boas colheitas.

As origens históricas desta celebração são incertas. Há uma parte da tradição tailandesa que faz remontar as suas origens ao período do reino Sukhothai (1238-1438), iniciada pela mão da principal consorte do rei, Nang Nopamas, e que perdura na tradição do Loi Krathong, através do concurso de rainha de beleza Noppamas, Miss Krathong, considerada um símbolo da mulher perfeita: divina, bela e inteligente. Outra parte da tradição tailandesa atribui as origens do festival às tradições indianas bramânicas e ao culto da água do Ganges, donde terá provindo o nome da deusa da água tailandesa, Phra Mae Khongkha.

Independentemente das suas origens, o povo tailadês continuará a cantar no festival do Loy Krathong, ano após ano: Em novembro a lua cheia brilha/Loy Krathong, Loy Krathong/e flutuando nas águas do rio local e nos canais/Loy Loy Krathong, Loy Loy Krathong/Loy Krathong está aqui e todo o mundo se enche de alegria/Estamos juntos nas águas dos canais/cada um com o seu krathong/À medida que se afasta/oramos esperando um dia melhor. (https://www.youtube.com/watch?v=J05U2oeANg8)

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