A responsabilidade chama e ninguém atende

Maria Caetano

Mais difícil que apanhar um táxi em Macau, só mesmo apanhar alguém que se responsabilize por alguma coisa que corra mal por aqui. Não há serviço de rádio-chamada à pedra que nos assista e banalizou-se a expressão da insustentável leveza das operações de transporte da cidade. Caiu a Viva Macau, caiu a Reolian e, agora, cai a Vang Iek com as suas 100 licenças de táxi – que, pelo discurso dos dirigentes da Administração com esta tutela – parece até que não fazem falta a ninguém. Tinham o valoroso e – diga-se – apenas potencial acrescento de, eventualmente, servirem a quem ainda liga e acredita que os regulamentos de transporte e contratos de prestação de serviços públicos servem para alguma coisa.

Com nenhum jeitinho, o Governo tem conseguido gerir com dano a coisa pública e levar também à ruína de uns quantos negócios privados na área dos transportes. Imprevidência de uns e de outros, oportunidade para eventuais salvadores de despojos, sucede que lesados somos todos, e que é cada vez mais impressionante a evidência de que perante uma política que deu prioridade à gestão e aperfeiçoamento do transporte público – sem a mínima menção concreta sobre a redução de veículos particulares – estamos indo de fracasso em fracasso. Os transportes públicos são hoje a segunda maior causa de descontentamento da população, logo a seguir à habitação.

A fama e proveito por este último fracasso não cabe em pleno a Wong Wan e à sua direcção de serviços, embora seja a estes mesmos que devamos assacar responsabilidades. Na verdade, as concessões do Governo desdobram-se em mil pequenas concessõezinhas e os nossos empresários parecem sempre pouco dispostos a fazer aquilo com que se comprometem – quanto mais a ter vocação para o serviço público. A mera razão para a existência da Vang Iek era a sua obrigação de prestar serviço de rádio-táxi, num contrato que nunca cumpriu inteiramente. A renovação do serviço foi acontecendo por força de não haver margem para reduzir a oferta de carros de aluguer na cidade.

Porém, a empresa manteve operações em condições de desequilíbrio progressivo do mercado. O número de veículos para dar dimensão à empresa era mínimo e os compromissos superavam já o valor relativo das tarifas, com a tentação de a Vang Iek fazer concorrência directa aos táxis pretos – livres para circular e, mais que isso, livres actualmente para cobrar aos passageiros aquilo que muito bem lhes apetecer com impunidade. Estava à vista da Administração, que não se quis por em trabalhos.

Os Serviços para os Assuntos de Tráfego mostram-se confiantes no surgimento de candidatos ao lugar da Vang Iek. E, talvez por isso, tenha sido desta vez mais fácil não renovar contrato com a empresa, exigindo o que nunca antes tinha sido exigido. De outro modo, mesmo com falta de recursos humanos ou problemas de “dimensão”, talvez fosse possível manter a insustentável situação.

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