Lost in Dialects

[Com os meus botões]

 

Lou Shuo

 

“Quando algo é muito nacional, torna-se internacional facilmente”, disse Lu Xun, algures na China, nos primórdios do século XX. O escritor, considerado o pai da moderna literatura chinesa, utilizava a língua como “arma” poderosa para lutar contra os mecanismos governamentais repressivos daquele período obscuro, criando um movimento que popularizou o uso da linguagem vernácula na escrita erudita.

A língua chinesa, a minha língua, era há cem anos motivo de orgulho para o povo chinês, o meu povo. E agora?

As discussões em torno da língua chinesa e dos seus dialectos têm-se multiplicado desde então, e nem sempre num sentido útil. Um exemplo recente: o professor da Universidade de Pequim Kong Qingdong disse a um canal de televisão em 2012 que as pessoas de Hong Kong são umas “bestas” porque não falam mandarim.

Acredito que tudo tem que ver com a questão da identidade. Com a imensa dimensão do meu país, dá facilmente para entender que existam aqui sete dialectos oficiais, representando cada um, sem dúvida, a cultura específica de uma região. Mal comparando, é um pouco como o sotaque do português que se fala no Brasil ser sempre relacionado com a imagem de uma mulher a sambar, toda ela alegria.

No caso da região vizinha de Hong Kong, a identidade própria da sua população é construída tendo como base, muitas vezes, as suas indústrias culturais ou criativas: os filmes, as músicas populares, e nomes como Leslie Cheung, Anita Mui e Wong Kar-Wai, que tanto têm contribuído para o enriquecimento da cultura de Hong Kong. E tudo, sublinhe-se aqui, divulgado sempre no seu dialecto próprio: o cantonês.

Aconteceu comigo um choque cultural de natureza linguística há quatro anos, quando cheguei pela primeira vez a Macau. Que loucura! Olhava à minha volta e não entendia uma única palavra que saía da boca de pessoas com a mesma aparência física, chinesas como eu. Sentia-me perdida.

Lembro-me de assistir uma vez a uma entrevista na televisão com um cantor cego, meu conterrâneo. A apresentadora perguntou-lhe o seguinte: “Então, como você define uma mulher bonita?” “Pela temperatura, pela voz”, respondeu o cantor, com uma pronúncia bem acentuada da minha região. Foi como se o tempo tivesse parado, eu ali a saborear as suas palavras, em êxtase.

Não foi só o terem sido palavras poéticas. Foi aquela sensação de permanência do meu dialecto.

No filme “Lost in Translation”, os dois personagens principais perdem-se na capital japonesa, numa teia de incompreensões linguísticas. Ao contrário, espero sinceramente que a actual “confusão” dos chineses em face das diferenças linguísticas possa, um dia, conduzir a um estádio de melhor entendimento entre os falantes dos vários dialectos existentes na China.

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