Macau: A singularidade na pluralidade

Carlos Piteira *

No actual contexto da RAEM, a particularidade da sua dimensão pluriétnica, ou em rigor pluricultural, mantém-se ainda viva pela presença multifacetada de vários “grupos” distintos que reclamam identidades diferenciadas.

A emergência de um modelo de relativização cultural é quase uma consequência imediata dessas sociedades. Se por um lado a mesma incentiva as regras de “coabitação”, porque de diferentes identidades culturais se trata, também é verdade que elas são simultaneamente um foco do conflito latente que vive ao lado de cada um.

Deste modo, a particularização ou emergência de uma singularidade única enquanto modelo global da sociedade em causa, permite apaziguar (sem anular) essa conflitualidade e incentivar a coabitação, isto é, a possibilidade que lhes é oferecida de se distinguirem, não tanto pela sua identidade cultural de origem ou genuína, mas sim, como pertencentes a um padrão coletivo que os acolhe pela malha de diferenciação admitida, permitindo-lhes o estabelecimento de um momento dual na sua integração.

Este é um exemplo concreto da sociedade macaense que observa a presença de várias culturas/etnias, (chinesa, portuguesa, macaense, tailandesa, filipina, africana, indiana, francófona, anglófona, etc.). Contudo todas elas tendem a afirmar-se no padrão coletivo que as acolhe como sendo os Chineses de Macau, os Portugueses de Macau, os Filipinos de Macau, os Tailandeses de Macau e nomeadamente os Macaenses de Macau que, apesar de redundante, não deixa de ser aplicável quando comparado com os macaenses residentes fora do território.

Podemos, deste modo, afirmar que a diversidade cultural num contexto pluriétnico tende a relativizar as próprias identidades culturais específicas, enformando-as e unificando-as num modelo emergente inerente ao próprio espaço onde as relações interculturais e interétnicas se produzem.

Ao analisarmos os “modos de vida” que se concretizam nos espaços pluriétnicos e pluriculturais, somos também confrontados com modos específicos de ser e estar que são simultaneamente singularidades de outras singularidades, dando assim uma componente de relativização ainda mais alargada e mais difícil de caracterizar, se bem que bastante peculiar e “sui generis” pela especificidade que cada uma contém em si.

No actual contexto da RAEM podemos ainda encontrar esta pluralidade de afirmações distintas que se congregam numa forma única e particular de afirmação singular que lhes vai dando o elemento de unificação e de pacificação, o que não exclui a possibilidade do conflito, se bem que mais mitigado e muito centrado em questões e interesses locais.

Deste modo o bem-estar do indivíduo depende em larga medida do bem-estar do grupo e da sociedade que o (os) insere, encorajando-o a estar em conformidade com o padrão coletivo sem perder a sua capacidade de expressar a diferenciação.

Esta dualidade (pacificação/conflitualidade) está quase sempre presente no domínio das relações interculturais e é também o “motor” da própria dinâmica social e cultural que lhe está adstrita, a questão étnica é hoje simultaneamente de conflito, pacificação e desenvolvimento. O sucesso das sociedades pluriculturais é, em última instância, também o próprio sucesso dessa “miscigenação” da permuta cultural e étnica.

Macau é sem dúvida um exemplo vivo dessa experiência e dessa vivência. Não a preservar será por certo um erro colossal.

(O autor escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa)

* Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas / Universidade de Lisboa

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